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Bowie


Meu corpo quer calar
para minha mente pensar
repousar em outra superfície
hostil como for, de graça não virá

a primeira pegada
a bandeira hasteada

não sou nada
quero ser astronauta
ver o nada
contemplar tudo.

Mudar é preciso

Agora vocês encontram os textos do Ótica na plataforma do Medium que, por sinal é um ótimo lugar para descobrir textos legais. Procurem saber mais. Abraço!

O olhar da minha cachorrinha

É chegar na ladeira onde moro para os meus olhos me levarem além do tempo e espaço presentes. Desde os últimos passos que me separam de casa, já estou vendo um prato de comida requentada - e deliciosa - e cedendo ao inexorável descanso pós-almoço. Ficar dessincronizado com o presente pode ser arriscado e custa os pequenos e delicados acontecimentos do instante, mas vá lá, não tem muita coisa empolgante acontecendo todo dia por ali, nem em tão pouco tempo. 

Aí dou de cara com as cachorrinhas no portão. Ou o que consigo acompanhar delas - um pedaço de rabo, uma orelha - já que estão vindo em minha direção a toda velocidade, passando na minha frente, entre as minhas pernas, se apoiando nelas com duas patas. Não é só amor, claro. Rola um interesse pelo almoço que se torna cada vez mais real com a minha chegada. Comida é importante, concordamos bastante sobre isso. 

Quase fechando a porta de casa, algo me chama a atenção: um par de olhos parou em frente ao vão e se encostou na parede ao me encarar. Pertencem à menos peluda e mais melancólica das cachorras dali e, suspeito, do mundo. Eu também parei. Tinha voltado para o presente, cem por centro sincronizado. Meu coração, antes apertado pela correria matinal, se afrouxou. 

Por alguns segundos pude recobrar alguma pureza, os olhos bondosos me permitiam ao me ver como bom. Tinha muita pureza ali, então não fazia mal dividir. No silêncio dos olhos também percebi uma despreocupação risonha com o passar dos dias. Uma satisfação do tamanho de uma mão que faz cafuné. Ela, que em nada se parece com seu nome famoso e dançante, carrega seus sessenta e três anos de cachorro imersa em um mistério e uma transparência praticamente impossíveis de conciliar.

Essa é Shakira.
Foto: arquivo pessoal.

Querido Violão Novo

Eu comprei um violão novo. Ele é tão bonito que não consigo tirar do meu colo. Não consigo parar de deslizar os dedos por suas cordas e olhar as marcas efêmeras que o calor de minha mão desenha em seu corpo. Aí deixo ele de lado, no canto do quarto, só pra ter o prazer de sentir saudade e matar saudade num ínfimo intervalo, repetindo e repetindo, experimentando a realidade como uma criança. 

Comprei porque é uma ocasião especial. Minha banda fará um show. Não o primeiro show, não a primeira vez naquele lugar, mas o primeiro com o violão novo. Faz sentido, né? Na verdade, faz todo sentido pra mim. O dinheiro que usei na compra foi o que ganhei com apresentações anteriores. É música virando música. Coisa bonita e pura. Eu imagino que seja essa a sensação de ver um filho dando os primeiros passos. 

Eu penso em música o dia todo. Eu penso no meu violão e nas minhas bandas e artistas favoritos. Eu penso nos gêneros, nas filosofias, no processo criativo, na identidade, nos objetivos, nas artes dos discos, apresentações ao vivo e em estúdio, versões acústicas, remixes e covers. Não sobra muito mais tempo pro resto.

Guto Guerra em Cuba, nas gravações do Programa Música na Mochila do canal Bis.
Fonte: Página do Facebook.

Por exemplo, estou com essa canção Lisztomania na cabeça, uma versão voz e violão que ouvi numa rádio, fiquei feliz nos primeiros acordes. Queria eu ser o cara a dar aquela boa notícia pro mundo, mostrar que dá pra se sentir bem ouvindo um violão. Queria ter feito essa música como já quis ter feito várias, mas Lisztomania é A Do Momento e será até que eu a esgote de algum modo, o que não me liberta dela para sempre.

Olha que nem saquei a letra de primeira, mas tem música que eu gosto por causa de um verso e o resto é todo duvidoso. Em outras eu ignoro a letra por completo, mas a melodia é suficiente, mais que suficiente. Não consigo jogá-las fora. Tem música que vai contra minha opinião, mas ainda assim eu gosto dela. Se ela me fez parar para escutá-la e me tira da apatia, sou grato. Se tocou o que só eu tinha em mente e, puta que pariu, não tinha dito para ninguém, sinto que posso pertencer a algum lugar. 

Então, eu quero me comover com todos Greatest Hits, The Best Of e coletâneas da Som Livre. E, nos intervalos, não censurar meus pés batendo no chão quando ouvir David Guetta. Eu quero me comover com Johann Sebastian Bach, Elomar Figueira Mello e gaitas de fole. Não quero perder nada. Quando deixo de gostar, por trás do bom senso da seletividade há um luto verdadeiro. Não quero sepultar meu violão. 

- Sebastião, porra! Você não disse que tem música nova? 
- Já vou! 
- Olha lá aquele goiaba dando entrevista pra ninguém de novo…

Tardinha



Arquivo pessoal.

Deposito nesse espaço de tempo sensações que, embora não possa lhes garantir sucesso, procurarei externar com alta fidelidade. Essa dificuldade é própria do indizível que precisa ser dito e por isso traz uma solidão que não dá as mãos para a tristeza ou o egoísmo, é solidão só. Conformada. De uma beleza que não se deve a comoções coletivas, mas a comoção individual, que marca fundo na alma essas novas linhas em relevo, impressões digitais. 

Eu deito no fim de tarde com um descanso que minha cama e meu travesseiro não permitem. Nem o abraço amigo, o cafuné apaixonado ou o colo da mãe. Aqueles poucos minutos que transitam entre o dia e a noite me alcançam um contentamento diferente. Perpassa meus sentidos, que não conseguem deixar de acompanhá-lo, tão cativante lhes parece.

De minha casa, vejo as árvores agitadas através da janela da cozinha enquanto a penumbra obstinada nos cerca. Da porta da rua, deixo passar por mim o vento - já mais frio - enquanto o Sol derruba a monocromia do céu, deixando-o no ápice de sua beleza. Contemplo o fim de tarde de onde estiver. Até da imaginação, onde penso em muita gente no fim do expediente voltando para casa. Banho, café, sofá, bicho de estimação, caminhada. Algum sossego na vida.

Construção

Bastou mirar a parede para ela começar a derreter. A solidez azul se liquefez, alcançou o piso e espalhou-se pelo quarto. Partindo da mesma causa, no violão apareceu uma, duas, três lágrimas até o próprio se desfazer num caldo negro. Esfregava os olhos compulsivamente, esperando como criança se ver livre do horror daquela insanidade de que culposa ou dolosamente era responsável. 

Sim. Augusto sabia que era coisa dele. Quando buscou ajuda: voilá! Disseram que sua cabeça era a causa. Lamentou profundamente não poder arrancá-la de cima dos ombros. Não chegou realmente a considerar a decapitação, mas questionou-se em segredo, tão intimamente que o mesmo desconheceu, a alcançabilidade da vida. A realidade era cada vez mais intangível. 

Augusto era um cara muito reservado, mas comum. Estudava, trabalhava, tinha lá seus amigos e casos esporádicos. Porém, aqueles olhos pretos não escondiam a qualidade opaca com que enxergavam. Dos livros aos turnos, cada pedaço concreto e abstrato comum a seus dias desenvolvia patologias como consequência a exposição prolongada. 

Então, em um dia memorável, assistiu grandes blocos se desprendendo do todo, mergulhando a toda velocidade e desaparecendo em uma profundidade infinita. Desde então, era Ciclope, Midas e Medusa ou nenhum destes. Se sua desventura era fruto de um gene mutante, de sua alma ambiciosa ou de razão divina, desconhecia. Era um trabalhador incansável a serviço da desconstrução, um arquiteto de ruínas¹. 

Das grandes qualidades do ser humano, para o bem ou para o mal, a adaptação brilhou em Augusto e permitiu que este exercesse algum controle pífio sobre seus poderes e retomasse uma fração da vida. Certo dia, não seguro de si, aceitou o convite para a festa de Nina. Era uma noite de sábado bastante agradável e de algum modo se sentia bem. Vestiu-se com um pouco mais de atenção do que costumava dispensar para tal. 

Chegando lá, reconheceu alguns rostos e também a música que tocava bem alto. Procurou algo para beber e Nina foi ao seu encontro com o dedo em riste, balançando, e um sorriso no rosto. Algum momento depois, não muito depois, estava sentado no sofá em meio a uma discussão da qual não tomava parte e uma leve vibração perturbou o que via, neste caso, os gestos expansivos do falador. Dirigiu-se rapidamente para fora da casa enquanto pressionava as pálpebras. 

- O que aconteceu, Augusto? 

Um dos convidados havia o seguido. 

- Afaste-se, por favor... 
- Calma, você não está tão mal assim...
- Meus olhos... Estou doente.
- Ora, não pego conjuntivite tão fácil... Vamos, tire o braço dos olhos e me conte isso direito. 
- Não é... Você não entende... Esses olhos são uma desgraça. 
- Espere um pouco... Use este par. 

Depois de alguns segundos se perguntando o que ele quis dizer com aquilo, Augusto não aguentou de curiosidade e abriu uma fresta pouco acima do braço para espiar. O homem estava desatarraxando os olhos como se fossem parafusos! Então, o viu estender uma das mãos com dois olhos castanhos na palma. Em choque, Augusto não continuou com os questionamentos, aceitou o que gentilmente lhe era dado e seguiu instruções posteriores: substituir os próprios órgãos defeituosos. 

Temeroso, mas hipnotizado pelo onírico da situação, concluiu a troca. Teve uma leve perturbação visual e, segundos depois, enxergou perfeitamente. Nada sofria a realidade. Absurdo! Voltou-se para o estranho e viu que já estava longe, se gabava da cor dos seus olhos foscos para uma morena de vestido colado. Cético, Augusto se levantou e cruzou a pista de dança olhando em todas as direções. 

- Ei, Augusto! Veja!

Dessa vez, o estranho já tinha olhos castanhos novamente, porém maiores e com leves tons de verde. A morena ao lado tinha os de Augusto. E foi assim toda a noite. Começou tímido, puxando conversa com o único assunto que ocupava a mente naquele instante. Estava ávido por todos os pares de olhos daquele lugar. A cada troca, ângulos diferentes do mesmo presente eram levantados. Dali a pouco estava dançando e se divertindo a valer. 

Só o que lhe deu noção do tempo foram seus pés mortificados. Procurava os olhos daquele louco a quem devia a noite. Não sem algum trabalho, encontrou-os com Nina e passou a procurar o dono. Avistou-o se despedindo da mesma morena, aquela da segunda troca. Aproximou-se quando ele já estava só: 

- Muito obrigado, seja lá o que tenha sido isso, não sei nem seu nome... 
- Não há o que explicar. É Bolívar. 

Augusto percebeu que se aproximava a hora de carregar de volta sua sina. Baixou a cabeça e nada mais falou. 

- Coragem – dizia Bolívar enquanto desparafusava – e obrigado por compartilhar como você enxerga. 
- Como pode agradecer por isso? 
- O que posso dizer? Destruição é uma forma de criação², Augusto. Mal posso esperar pelo que você irá construir em seguida, ainda mais sendo conhecedor das falhas antigas. Enfim, já sabe minha forma de ver as coisas. Depois nos falamos mais, abraço! 

E foi embora. 

Via se distanciando o amigo e percebeu que ainda enxergava como ele. Enxergava também como a morena do vestido colado, sua amiga Nina e todas as pessoas com que entrou em contato. Também enxergava como ele mesmo, gerenciando todos esses modos de enxergar e acolhendo-os. Por hora, sem destruir nada, sem nem pressentimentos de destruição. 


¹ Quincas Borba, Machado de Assis. 
² Donie Darko.

Gravidade

Durante a madrugada, estirado sobre lençóis surrados e alvos, teve novamente aquela experiência perturbadora. Entre consciência e inconsciência, percebeu que não conseguia se mover. Era como se pousasse sobre ele o céu. Consciência. Ordenou ao cérebro que ordenasse ao corpo que se mexesse. Inconsciência. Despertou com o alarme agredindo os ouvidos. A claridade invadia bruscamente os olhos claros com 0,75 graus de astigmatismo. 

Rolou da cama propositalmente até cair no chão. Tinha os cabelos escuros em desalinho, a gola da camisa pendendo para um lado e a vertigem típica daquele horário. A pasta na escova de dente, do tamanho de uma ervilha como ele colocava desde que leu que assim era o correto, caiu no sapato na primeira escovada. A água do café demorou para ferver. Os óculos escorregaram do rosto molhado e caíram no chão. 

- Porra de gravidade. - Desabafou. 

Ao entardecer, voltava do trabalho a passos rápidos. Suado e esgotado, queria pular aqueles minutos que o separavam de sua cama e de um filme. Distraía-se com o fato do beco por onde passava estar deserto naquele horário. Olhava para cima e se encantava com a vista inédita (para ele) das fachadas dos pavimentos superiores das construções. 

Na metade do beco, seus sapatos deslizaram pelo chão e, em um impulso, ele caiu de costas. Ninguém viu. Ao abrir os olhos, segundos após a queda, deu de cara com a vastidão negra que já havia se tornado o céu. Ficou em silêncio. Lembrou-se do fascínio tardio pelo que existe lá fora. Tardio porque não era sonho de criança, aquela coisa de astronauta - a bola que ele queria contemplar nessa época era bem menor - era sonho de adulto. 

Na Terra, ao caminhar, sua coluna pendia levemente para a frente e seus ombros estavam invariavelmente tensos, ambos dando sinais de um fardo invisível. Arrastava seus calçados desde pequeno, mesmo sob as broncas dos pais. Seu devaneio era que, no espaço, houvesse a possibilidade das coisas não se abaterem sobre ele daquele modo. Lá havia microgravidade e uma vista bonita. 

Foto: divulgação do filme "Gravidade".

Cedeu. Dormiu de olhos abertos, encarando as poucas estrelas no quadro emoldurado por edifícios. No dia seguinte, alguns transeuntes que não o julgaram bêbado, tentaram colocá-lo de pé, mas assustaram-se com o peso daquele homem que não aparentava possuir mais que 70kg. Ambulâncias e suas macas falharam. Absurdamente, guinchos falharam. Não o afastaram do chão por um instante. 

Identificaram-no como Bolívar Freitas, 26 anos. Pessoas próximas não sabiam o que fazer. Tornou-se manchete em todos os jornais do mundo. Físicos e estudiosos desfaziam-se em teorias a respeito daquele caso surreal. Estudantes posavam para fotos “criativas”. Virou "mene" no twitter e facebook e, mais tarde, ícone da cultura pop ao ser usado como referência em diversas ocasiões. 

Também virou uma espécie de muro de lamentações: já era hábito deitar-se ao lado de Bolívar, que aparentava uma serenidade infinda, para contar fatos e pensamentos íntimos. Alguns diziam sair mais leves depois de um papo. A perplexidade das pessoas que o examinavam todos os dias foi sendo substituída pela conformidade. Sim, graças à Deus, Bolívar estava vivo. Em algum lugar para onde seus olhos espertos apontavam.

A verdadeira maturidade

Mudanças de estado perpetuam-se fora de nós em pequenas demonstrações na tentativa de explicar a transição-mor que é a vida. Do meu nascimento até a minha morte, as plantas e os videogames terão suas fases bem determinadas e, de acordo com as aulas de biologia, eu também. Acontece que pesquisadores estão afirmando que uma dessas fases dura mais do que estamos acostumados a achar

Em The Kings of Summer, três amigos, de aproximadamente 15 anos, não conseguem mais morar com os pais pela forma como são afetados por eles e decidem se mudar para sua própria casa, construída por suas próprias mãos. Eles anseiam pela independência, pelo que chamam de “ser homem”. 

Homens.
Não dando a infância o pólo negativo e nem a maturidade o positivo, não ignorando os estudos da neurociência sobre as delimitações das fases, mas dentro da complexidade que somos, carregaríamos tal previsibilidade? São relutantes, medrosos, passivos, traumatizados, todos os que fogem ou não se encaixam nesses esquema fechado? 

Assim que você sair do Ensino Médio, enquanto faz cursinho ou não, deverá saber em que trabalhará pelo resto de sua vida. A partir de determinada idade, assistir animações é um sinal grave de demência. Você precisa saber dirigir aos 18. Se você não casar até os 30, vai passar o resto de sua vida sozinho(a): as mulheres (de onde surgiu isso?) rodeadas por gatos esnobes e os homens por dúvidas alheias quanto a sua sexualidade. 

“Somos completa e sinceramente forçados a viver reverenciando nossa vida e negando a possibilidade de mudança. Dizemos ser esta a única maneira, mas existem tantas quanto os raios que podem ser desenhados a partir de um centro.” 
- Henry David Thoreau, Walden. 

Essa ideia de transição mágica, que eu e minha mania de classificações e marco zero adoraríamos que fosse verdade, não existe. Falando por mim, é uma irresponsabilidade eu ser adulto e uma tortura ser adolescente. Não é exclusividade: muitos amigos já me confessaram sentir o drama e a pressão da classificação etária trazendo suas responsabilidades pré-estabelecidas. 

"Por que não é permitido aos adultos enlouquecer com algo? Você tem que manter uma tampa sobre e, se você não coloca, você não cresceu, você é um boboca. Sua conversa é trivial e rústica. (...) Você não pode expressar suas necessidades emocionais. Você não pode se relacionar com suas crianças e você morre - sozinho e miserável." 
- Filme Fever Pitch, 1997. 

O filme Into the Wild (sim, vou citá-lo de novo) é dividido de forma a nos mostrar que só a viagem de McCandless, após formar-se, proporcionou-lhe uma infância, uma adolescência e uma fase adulta. Nossas fases, ao contrário dos nossos corpos, não seguem um fio único. Por vários canais, alternadamente paralelos e seriais, se iniciam e se interrompem as transições. 

Fugimos de casa, mas estamos construindo a nossa.
A verdadeira maturidade (ou as verdadeiras maturidades), a que cada um de nós está destinado se questionar o atual esquema, definindo-a como desenvolvimento humano em todos os aspectos, pode mostrar sua própria estrada. A vida poderá comportar paixões infantis, sonhos adolescentes e a sabedoria da velhice (a exemplo do meu avô, acertando a previsão do tempo pelos sentidos e vendo as fases da lua nos calendários além dos dias).

Calidez

Três amigos decidiam-se sobre o próximo passo a tomar naquele atípico domingo de setembro. Já haviam almoçado um divertido yakissoba caseiro e visitado alguns amigos por boas horas preenchidas de notáveis sentimentos. Acabaram na praça de alimentação de um shopping comendo subway enquanto teciam teorias a respeito do músico que tocava aquela noite. Concluíram que apesar do repertório manjado  leia-se Pra Ser Sincero dos Engenheiros do Hawaii  ele arrumou algum espaço para originalidade com Chrystian e Ralf e, independente dessas coisas, também concordaram que era ingrato estar ali sem ser devidamente apreciado. 

Nada atípico. Nada mais banal que a praça de alimentação de um shopping, afirmação devidamente atestada pela quantidade de pessoas entediadas ocupando as mesas e mastigando seus lanches, transitando incessantemente por cada centímetro livre e alimentando filas para não perder o costume. Porém, não se sabe bem como acontecem essas coisas, as resistências em permanecer ali e as trivialidades das palavras rápidas deram lugar a intimidade. “Me descobri ateu”, um disse. “Sou católico”, disse o outro. “Ainda não sei”, disse a outra. Todo o resto foi relegado a um segundo plano. 

As conversas somadas ao redor, as músicas (não há esperanças para o músico da praça de alimentação) e o transitar infindável de pessoas, tal qual os barulhos e trânsito internos dos três amigos, ficaram suspensos. Havia medo, ansiedade e cautela em suas histórias e afirmações, mas ao mesmo tempo era incrível a familiaridade daquelas vozes. Eram vozes de canções antigas, contemporâneas ou futuras: vozes atemporais. Aquilo ressoava, dentro de pelo menos um deles, como um sonar que tentava localizar algo que fica letárgico a maior parte do tempo, algo que fica sedado por ocupações ridiculamente banais se comparadas a sua grandeza. 

O sonar feito de vozes detectou o que buscava. Horrorizado e maravilhado com sua redescoberta recente e pouco explorada, um deles se perguntou como conseguiu manter-se em sobrevida todo aquele tempo. Onde começava e onde terminavam as influências externas e as internas sobre ele? Viu-se angustiado novamente após um período confortável de autopiedade por não ter muitas certezas. Não, não se trata de alcançá-las rapidamente e colecioná-las, mas de estar persistentemente em seu encalço, protegido por suas sombras, na esperança de sentir-se seguro, enfim. 

As três vozes iam ressoando, se harmonizando a medida que saíam das gargantas, até se equalizarem a ponto de compor algo novo. Era um som experimental a ser executado que acendeu algo em pelo menos um deles. Era uma luz tímida, mas amplamente cálida. Três pessoas se dispuseram a entender-se mutuamente e a entender a si próprias, sem procurar julgar ambos. A iluminação na praça regredia, o trânsito havia praticamente cessado e, por consequência, o silêncio era quase palpável. No fim, não havia três pessoas na mesa, havia uma só.

Listas rápidas de meus 22 anos

A beleza das listas de coisas preferidas está nas infinitas combinações de itens e classificações, porque estas são regidas por sentimentos diferentes que tocaram pessoas diferentes em momentos diferentes.

Inspirado pela série O Ranking de uma Vida do Bruno Passos e pela The List do David, quero apresentar-lhes algumas de minhas listas rápidas. Não se trata de “top coisas”, a ordem não influencia no gosto e foi sofrido reduzir tudo a três itens.

LIVROS QUE DERAM GOSTO À MINHA VIDA EM DIFERENTES MOMENTOS 


1. Meu Pé de Laranja Lima (José Mauro de Vasconcelos)

:')

Único livro nacional que fui obrigado a ler e gostei. Em tempos de prova do livro, no ensino fundamental, um verdadeiro milagre nasceu dessas belas páginas cheias de sentimentos fortes despertados pela sensibilidade da infância. 


2. Todos de Agatha Christie 

A dama do crime.

Agatha Christie foi a responsável por despertar meu gosto pelos livros de novo, já na metade do ensino médio. Começou com Um Corpo Na Biblioteca até quase devorar o acervo da biblioteca municipal. Destaque para O Caso dos Dez Negrinhos e O Inimigo Secreto, dois livros que estão na ponta da língua na hora das indicações, o primeiro por ser genial e o segundo por ser empolgante demais.  


3. Walden (Henry David Thoreau)

A cabana de Thoreau.

Um sentimento muito forte sobre viagens surgiu em meu espírito nos últimos tempos e coincidências estranhas e belas vieram reforçar isso. Uma delas foi Thoreau contando sua experiência e lapidando o espírito em uma viagem. Ainda não terminei de ler Walden, algo me diz que é o tipo de livro para ser lido com todo cuidado. Cada frase é um ensinamento valioso e cada palavra desperta críticas pontuais sobre a forma que vivemos e as tantas outras que poderíamos viver. 


DESENHOS QUE EU ASSISTIRIA COM MEUS FILHOS 


1. Pokémon 

1ª temporada, só.

Entre álbuns, tazos, bonecos da pitchulinha do Guaraná Antarctica e brincadeiras sem fim, jazem os melhores anos da minha infância. Esse desenho foi capaz de criar vínculos tão fortes e influenciar tanto as gerações que ainda está presente em nossas referências. 


2. Scooby Doo 

:')

Sempre gostei muito de gêneros detetivescos e essa turma me acompanhou por muito tempo. Graças ao SBT e sua grade “flexível”, pude assistir esse cachorro lindo em todos os horários possíveis. Lembro que já cheguei a ver os episódios com um caderno e um lápis na mão para anotar as pistas e descobrir quem estava por trás dos monstros. 


3. Naruto 

"Aqueles que desobedecem as regras são tratados como lixo, mas, aqueles que abandonam seus companheiros, são piores que lixo."

É uma das histórias mais brilhantes e emocionantes que já vi e os personagens são muito bem trabalhados. Traz lições valiosas de persistência, amizade e respeito entre gerações. Fora isso, adoro essa coisa de ninja e admiro a cultura japonesa. Kishimoto é um grande autor e merece todos os créditos. Comecei a ver no ensino médio e continuo até hoje, a saga ainda não terminou para a alegria de incontáveis fãs. 


ÁLBUNS PARA ESCUTAR DE UMA VEZ


1. Cosmotron (Skank, 2003)



Skank é uma das minhas bandas primeiras e prediletas e resistiu ao bombardeio de descobertas na internet. Cosmotron é uma belezinha, cheio de músicas que estão na ponta da língua, ótimo para se ouvir numa sexta-feira à noite, aquela que você deixou de sair pra ficar em casa, usando roupa furada, bebendo e comendo. 


2. Rhythms Del Mundo Cuba (Buena Vista Social Club, 2006)



Recepção da música latina em minha playlist e, mais que isso, a descoberta do grande Buena Vista Social Club. Esse álbum tem versões sensacionais de Coldplay, Franz Ferdinand, Arctic Monkeys, entre outros, e é a cara de uma manhã de domingo que começa às 10h. 


3. Into The Wild (Eddie Vedder, 2007)



É inegável que o filme agrega boa parte do valor que atribuo ao álbum, mas o vocalista do Pearl Jam conseguiu fazer um trabalho capaz de comover por sua delicadeza, simplicidade e serenidade. Trilha sonora para viagens futuras, definitivamente.


SÉRIES QUE NÃO PRECISEI ESPERAR O EPISÓDIO OU A TEMPORADA SEGUINTE PARA GOSTAR


1. Prison Break (2005-2009)

Amor de irmãos.

Conto como a primeira série que vi, porque só nela tive consciência do que é acompanhar uma série. Assistia uma temporada por final de semana e qualquer ritmo menor que esse seria muito angustiante para suportar. Todos os ouros para a primeira temporada, de uma inteligência e suspense desconsertantes. 


2. Shameless (US, 2011-) 

Simpáticos.

Assistindo despretensiosamente ao primeiro episódio, descobri um vício de três temporadas (lançadas). Aqui tem personagens cativantes e todos tem importância no enredo. Apesar de ser uma série que eu definiria como pesada, chama atenção por ser muito humana. Evoca amor, família e amizade em um lugar improvável.


3. The Office (US, 2005-2013) 

Colegas de trabalho em expedientes de 20 minutos.

Já falei sobre ela aqui. Tornou-se a minha série de comédia favorita. Às vezes não percebemos que nove temporadas são nove anos (!) passados e seus personagens também vão envelhecendo e mudando junto com os atores e atrizes que os representam. Fora todos os outros, é um aspecto muito interessante e de ganho artístico notável. 


CITAÇÕES QUE PRECISO LER DIARIAMENTE

1. "Só não jogo tudo pro alto porque quando cair vou ter que catar."
– Guilherme Massano

2. "A felicidade só é real quando compartilhada."
 Christopher McCandless 

3. "Seja água, meu amigo."
 Bruce Lee 

FILMES QUE DURARAM MUITO MAIS QUE A PRÓPRIA REPRODUÇÃO 


1. The Iron Giant (1999)

:')

Um menino solitário e seu robô gigante contra o mundo. As cores, os traços, a dublagem, tudo me traz de volta àquelas manhãs de sábado, assistindo desenho embaixo da coberta. 


2. Into The Wild (2007)

"Se admitirmos que a vida humana pode ser regida pela razão, está destruída a possibilidade da vida."

Esse filme deixou uma impressão muito forte em mim. Lembro de ter ficado algumas semanas absorvendo tudo. Um homem, inspirado pelos seus autores favoritos, deixou de viver como todos os outros para viver do próprio jeito. As imagens, a trilha sonora, os diálogos, cada detalhe é precioso. 


3. The Perks of Being a Wallflower (2012)

"Você vê as coisas. Você guarda silêncio sobre elas. Você compreende."

Crio simpatia por qualquer personagem desajustado e provavelmente é assim com todo mundo, mas não é o principal aqui. Esse filme fala do amor pelos amigos e a necessidade de ser reconhecido por eles, fala da nostalgia e dos desencontros. 


COISAS PARA FAZER ALGUM DIA


1. Mochilar


(Y)

Uma hora você expande e sua cidade encolhe. Você ouve falar da estrada, das pessoas, do quanto há para experimentar e sente que essa necessidade vai te consumir se você não atendê-la. 

2. Aprender arco e flecha 

Keira Knightley + arco e flecha

A arma mais foda de todas. E tem todos os bônus de concentração, precisão e controle. Se eu tivesse arco e flecha, não sairia de casa sem ele e acho que é por isso que ainda não tenho um. 

3. Escrever e publicar um livro 


On The Road!
Quando leio livros de anos e anos atrás e me identifico com o que foi escrito, percebo a grandiosidade dessa arte. Você pode se multiplicar, atravessar o tempo e criar laços com as pessoas, afetando suas vidas.

_
Adoraria que os leitores fizessem listas algum dia e me chamassem para olhar. Abraço!