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Presente de um beija-flor¹

- Beija-flor, que trouxe meu amor, voo e foi embora...

Dentro do ônibus completamente lotado, um rapaz cantava. Cantava alto, parecendo que o ônibus era o banheiro da própria casa. Também batia no caderno, como uma percursão improvisada. Deveria ter seus vinte e cinco anos e possuía uma aparência comum, nada que acusasse uma provável loucura.

- Olha só como é lindo meu amor, estou feliz agora...

As pessoas olhavam. Alguns expressavam séria reprovação, outros ficavam rindo e ainda haviam uns imperturbáveis. Eu ficava tentando imaginar o que levaria alguém a cantar num ônibus cheio. Seria um louco? Revoltado? Desiludido? Apaixonado? Sem noção?

- Fim de ano vou embora de ‘Conquista’, que é pra eu ver o mar...Mas diz pra mãe lá pro final de fevereiro é que eu vou voltar...

Não dava sinais de desistência, nem reparava nos olhares de quem não queria ouvi-lo. Só continuava seu show sem perceber sua platéia furiosa ou debochada. Eu não estava muito incomodado com a voz, que por sinal era um tanto desafinada, e sim pelo fato de não conseguir ser tão corajoso ou louco, seja lá o que for.

- Agradeço por poder cantar, e ver você ouvir...ée...

Depois de tanto refletir, decidi não ficar tentando explicar mais nada. Na entrada do ônibus havia alguns dizeres como: “Não fale com o motorista”, “Não fume” e “Não ultrapasse o limite de pessoas”, no entanto não havia nenhum aviso escrito: “Não cante”. E, apesar de alguns ficaram de cara feia, ninguém pediu para o meliante parar com o karaokê.

- E tentar entender essa mensagem, que eu quero transmitir...

Até simpatizei pelo ato no fim das contas. Ele continuava cantando e apareceu mais uma, duas, três vozes em coro. Até que o ônibus inteiro estava como um grande ônibus escolar. Os rostos se desanuviaram, as expressões se abriram e todos cantavam felizes. Eu também cantei, é claro. Louco, agora, era quem estava calado.

- Estou feliz agora...

______________
Presente de um beija-flor¹: Música de Alexandre Carlos Cruz.

7 comentários:

Eduardo Magalhães disse...

E o que é ser louco nesse mundo de meu Deus?
Agir particularmente ou ser maioria?
Bahhh, afinal louco é quem não canta, mesmo em silêncio!

Abraço forte!

Daniel Simões Coelho disse...

hahaha

que eh normal nao eh mesmo, mas se a tristeza "pega". a alegria tambem eh contagiante

belo texto, votei na enquete

claro votei em todas as opções

[Tiete]

ahahaha


abraços

Jeniffer Santos disse...

ahhaha!
ai ai ai!
coisa boa, ele é feliz pow...adoro histórias de buzu xD

beijos

Crispi. disse...

Podia ser pior. Podia ser o funk do titanic. Ai além de um coro cantando, iria ter umas popozudas-mulher-com-nome-de-qualquer-fruta rebolando também. Já pensou?

Filipe Garcia disse...

Viagem divertida, pelo menos. Não há nada pior que andar de ônibus, sol na cara, sovaco suado do lado, etc. Cantar, pra todos os efeitos, provoca. E isso acaba sendo bom.

Gostei desse, Hélder. Diferente dos outros contos. Gostei.

Abraços.

Nick Farewell disse...

Bom conto, Hélder. Valeu pela visita no blog. Espero que goste do livro até o fim.
Abraços.

Fernando R. Silva disse...

No meu trabalho tem um faxineiro que faz isso, canta em alto e bom som enquanto faz seu trabalho. A questão é que o cara é quase um tenor, tem uma puta voz. E toda vez que ele começa a cantar, amigos dele o acompanham e vira algo de filme.

Sobre a música em questão, nossa, em Brasília não aguentamos mais nem escutá-la. Antes do disco sair em cadeia nacional, já rolava o independente aqui, então enjoamos do tal Beij-Flor, embora a mensagem da música seja das melhores e tipicamente brasiliense.

Abraços!