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O Caso do Defenestrado

Dr. Harry tirava uma soneca no divã. Ele colocou os pés no lugar onde deveria repousar as costas e um fio de saliva descia lentamente pelo canto esquerdo da sua boca. Após retornar de sua viagem à China, seus horários viraram de cabeça para baixo. Sofia batia na porta, desesperada, pois não conseguia falar com ele e o primeiro paciente já havia chegado.
- Doutor! – Gritou Sofia.
Ela resolveu entrar, encontrou-o num sono profundo e teve vontade de atirá-lo pela janela. Mas conteve-se, pois acabou percebendo que seria presa e, pior, perderia o emprego. Ajeitou a mecha do cabelo que saiu do lugar e deu uns tapinhas no ombro do seu patrão.
- Oi? – Disse Harry recuperando os sentidos aos poucos.
- Doutor, seu paciente chegou. – Disse Sofia, calmamente. Nem parecia a mulher de minutos atrás.
- Obrigado. Mande entrar.
Ele deslizou no divã, ajeitou os óculos e a gravata, passou a mão no canto esquerdo da boca e tomou seu lugar. Ao mesmo tempo em que ele se sentava, um homem que lembrava muito um lemuri (de acordo com o próprio Dr. Harry) entrou na sala. Tinha olhos desconfiados e um jeito estranho.
Após as apresentações, Dr. Harry foi adentrando aos poucos nas preocupações que cercavam o sujeito. E então, ele desabafou:
- Doutor, me ajude! Minha vida é um desastre! Meus problemas me sufocam! Às vezes tenho vontade de me atirar pela janela. – Após dizer isso ele olhou para a janela com olhos apaixonados.
- Vá em frente. – Disse Harry.
- Como?! – O homem ficou horrorizado.
- Vamos até lá.
- C-como?!
Harry encaminhou o homem até a janela e disse:
- Deixe de drama, seu chorão!
- Pare com isso, doutor!
Harry deu um empurrão e o homem foi lançado pela janela. Na sala ao lado, Sofia e os outros pacientes ficaram assustados com o grito que veio lá de dentro e muitos dos que esperavam se retiraram.
- Tudo bem aí? – Harry perguntou, enquanto estendia a mão para o homem que se encontrava jogado no tapete da varanda, uns poucos centímetros abaixo da janela. O homem mal conseguia se mexer, tamanho o susto que levou.
- Se o problema tem solução, pra que se preocupar? Se o problema não tem solução, pra que se preocupar? – Sentenciou Harry em voz alta enquanto escondia os restos de um pastel da sorte chinês que trouxe da viagem.


4 comentários:

Glauber disse...

Rapaz, esse doutor Harry sabe das coisas! É como dizem: "...pior é na guerra que não tem nem chiclete, só bala..." Os problemas estão aí para que nós possamos solucioná-los. Como seria o mundo se cada um resolvesse se jogar de uma janela quando se deparasse com um problema?

Hakuna Matata! (H)

Eolo, Senhor dos Ventos... disse...

Gostei Hélder...

Leitura agradável.

Abraço!

@jujubahia disse...

Voltaire inspirando pessoas e pessoas pelo mundo afora euheuheuh
Deveras, pra que se preocupar? a mera preocupação não resolve coisa alguma, por isso partamos para a prática, como fez o doctor harry!
Tô de volta ;)
;**

Luma Rosa disse...

Dr. Harry, terapeuta de choque!!

Problemas, o nome já diz! Melhor não se preocupar!!