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Dançando um Tango

Ela? Rosa, uma artista de rua. Não fazia artes manuais, acrobacias ou música: ela dançava. Melhor, ela fazia tudo isso. Seu tango era a união de todas as artes. Um tango de som cortante que misturava ritmos e contagiava a todos. Sem falar na beleza da sua intérprete. Rosa era o espetáculo: estatura mediana, corpo escultural, olhos mais ferinos que o da própria Capitu. Se ela tinha um parceiro da dança? Não sei. Nunca reparei. Mesmo se não tivesse, não faria falta alguma.

Eu? Tomás, um simples admirador de sua beleza e arte. Saí do meu trabalho para vê-la, já que hoje ela se apresenta aqui numa viela próxima. Do nada surgiu uma multidão para assisti-la. Santa Maria começou a tocar e ela saiu, não sei de onde, para fazer sua performance. Movimentos lentos e rápidos, a sua beleza contrastando com a escuridão. Acabou, mas durou o bastante para que eu me convencesse a procurá-la.

- Rosa? – Disse eu

- Boa noite, cavalheiro. – Seu sotaque me fazia estremecer.

- Sou um grande admirador...

- Você acompanha todas as minhas apresentações e é sempre generoso. - Ela sorriu e eu percebi que segurava o chapéu do seu par (devo repetir, nunca o percebi na dança, é sério).

- Na realidade você é muito boa mesmo. Merecia os palcos do mundo inteiro.

- Você não sabe o quanto.

- Quero saber.

- Então você é um sedutor?

- Não, não, longe disso. Só queria um autógrafo. – apontei para os meus lábios.

Então ela sorriu e me beijou.

Pronto. Já imaginei a cena, só resta por em prática.

Saí do meu lugar quando terminou a dança, pronto para executar tudo da mesma maneira que imaginei.

- Rosa? – Disse eu

- Boa noite, cavalheiro. – Seu sotaque realmente me fez estremecer.

- Sou um grande admirador...

- Mesmo? Fico muito feliz.

- Na realidade você é muito boa mesmo. Merecia os palcos do mundo inteiro.

- Nossa, obrigada. Estou nas ruas por vontade própria... Já fui convidada, mas aqui me sinto mais artista.

- Mesmo? Deve ser por isso que é tão especial.

- Obrigada. Então você é um admirador?

- Sim... E quero um autógrafo. – apontei para os meus lábios.

- Aqui está.

Uma voz grossa ecoou em meus ouvidos e senti uma dor fortíssima no rosto, nos lábios mais especificamente, que começaram a sangrar instantaneamente. Antes de sentir a dor pude enxergar o que ocorreu. Sabe o parceiro que até então nunca havia notado? Ele era real, batia forte e era casado com ela. Como eu sei o último detalhe? Murro dói, com aliança dói mais ainda.

6 comentários:

@jujubahia disse...

Sensacional, meu caro, reldinho!
Brocando nos contos e agora nos repentes tbm. aushaushush
Tango é deveras envolvente ;)
;**

Glauber disse...

Ri demais! Muito bom!
hahahahahaha

Glauber disse...

Ri demais! Muito bom!
hahahahahaha

Luma Rosa disse...

Que situação!! Moral da história: "Sonhar é sempre bom, principalmente quando a realidade é cruel". Boa semana!

Luc disse...

hahahahaha!

Au disse...

Muito bom!

“- Não, não, longe disso. Só queria um autógrafo. – apontei para os meus lábios”.

Quando comecei a ler imaginei um outro final, e mesmo sabendo que poderia estar enganado, nunca imaginaria a forma como você finalizou. Adoro ser surpreendido!

Parabéns!



Abraço!