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Efeito picolé

Caio entrou num desses ônibus que cruzam a cidade de ponta a ponta. Preferia andar, mas estava com vontade de apressar as coisas para estar em casa. Seus passos eram indecisos. Preparava-se psicologicamente para a viagem longa e cheia de paradas. Pegou seus fones e colocou O Rappa para tocar. Entrou, deu boa noite ao motorista, mas ignorou o cobrador. Falar com muitas pessoas era cansativo.

Meg, ao entrar no ônibus, pediu paciência para quem vinha logo atrás dela. Afinal, respeito é importante e o rapaz a sua frente andava devagar e parecia cansado. Ela sentia-se bem, seus fones espalhavam o som de Coldplay pelo corpo com efeito anestésico. Gostava da viagem de ônibus e dessa com trilha sonora. Sentou-se ao lado da janela. Observava a rua e tudo pareceu cinematográfico de repente.

Gabriela não gostou que a menina a sua frente pedisse paciência. Ela havia sido empurrada pelo brutamonte que vinha logo atrás. O dia estava péssimo. Ela não merecia ser empurrada e nem ouvir sermão. Resmungou algumas verdades, mas a menina estava com fones de ouvido. Acabou se lembrando que o mp3 estava na bolsa. Pegou-o e deu play no “Artista desconhecido, faixa dois”,  dessa tratava-se de Lenine e a clássica "Paciência". Irônico.

Bruno havia esbarrado de propósito na moça que estava com a cara fechada. Ele gostava de provocar. Queria há tempos dar um motivo para que ela ficasse de cara fechada, pois, na opinião dele, pelo menos seria plausível, já que todos os dias ela estava com aquela mesma cara. Quando ela começou a reclamar, ele colocou os fones e System of a Down rugiu no volume máximo. Sentou-se no fundo do ônibus, era seu lugar predileto. De lá podia ver todos e não havia ninguém atrás dele.

Tarso viu todos entretidos com suas músicas e percebeu que havia esquecido seus fones em casa. Que se dane! Pegou o celular e colocou pra tocar “se você quer picolé, tome aí seu picolé”. Todos os passageiros, inclusive os que tinham fones, olharam para ele. Ele ignorou e continuou escutando sua música, imperturbável. Bruno, irascível, colocou sua música no auto-falante em resposta. Gabriela começou a resmungar para todos e ninguém. Meg adormeceu. Caio aquiesceu, falar com muitas pessoas era cansativo.

11 comentários:

@jujubahia disse...

Uma semana andando pelos busões avionados de salvador, vendo as pessoas pedirem dinheiro e venderem as mais variadas coisas, renderia boas histórias.

Daniel Simões Coelho disse...

ainda bem que andavam com fones de ouvidos, certamente ninguem ouvia funk, hahahaha

abraços

Luma Rosa disse...

Cada um inicia a sua rotina, demonstrando aquilo que são ou não. O olhar crítico nos salva e pessoas que forçadamente ocupam o mesmo lugar todos os dias adotarem posturas diferentes, são olhadas até de modo esquisito.
Lendo o texto lembrei de um vídeo e fui atrás para te mostrar. Espero que tenha paciência de assistir - a iniciativa é bem legal!

The best medicine in the world

Boa semana! Beijus,

Filipe Garcia disse...

Eu acho graça é dessas pessoas, geladas que nem picolé. Nem pra iniciar uma prosa, nem pra fazer uma piada...

Gostei da crônica.

Abraço!

Anônimo disse...

Olá!

Tenho uma proposta para seu blog que acredito ser relevante para você.

Caso haja interesse, entre em contato!


Atenciosamente,
Cristiano
contato@webreside.net

gabriela monteiro disse...

gostei do texto, é bem isso mesmo que acontece SEMPRE. haha
Apesar de meu nome ser Gabriela e todas as minha musicas de Lenine do mp3 serem 'artista desconhecido - faixa 2', eu to mais pra Meg. (:

Amanda Oliveira disse...

Gostei gostei gostei... E permissão pra dizer de novo Gostei! Adorei a crônica e esse jeito que você escreve . Sou nova aqui no blog, e cheguei pra ficar.

andreh_ll disse...

Palavras num conjunto Voraz.
Grato a Bruna Pires que me indicou o blog.

Lucas disse...

Tirando o Tarso... todos tem bom gosto. Tirando o Tarso... a falta de educação de todos era menos ofensiva. Tirando o Tarso... eu não esbarraria em ninguém. Tirando o Tarso... seria um bom ônibus.

Lua Durand disse...

Hélder, Muito bom esse texto!
Efeito picolé, ou efeito dominó?
Tenho histórias diversas de ônibus para contar, você até me deu uma idéia!

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Nunca mais nos falamos, desejo um 2011 cheio de luz para você e sua familia.

Cheiro.

Pedro Ivo disse...

Quão inocente o Tarso. será?
Curti demais, Heldim!