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Luto Vermelho

Damon caminhava de forma mecânica, pois pensava muito quando tinha tempo sobrando. Estava desconfortável. A gola apertava a garganta por fora e por dentro. A camisa era presente dela. Apesar do fim ter sido um acerto dos dois, ele não acontece com uma simples despedida. Para que o processo fosse mais rápido, jogaria fora tudo que lembrasse sua ex. Jogaria a camisa no lixo. Não, melhor! Doaria para alguém. Alguém sem um pescoço tão grosso e, possivelmente, sem nó na garganta. Afastou a gola do pescoço para aliviar um pouco e acabou raspando de leve nos fiapos do rosto.

Barba. Estava cheia, escura e lhe conferia um ar sóbrio, maduro. Ela pedia sempre para deixar crescer, gostava dele assim. Só que a barba sempre irritava a pele e ele ficava integralmente irritado. Livraria-se da barba com muito prazer: aproveitando cada passagem da lâmina. Enquanto coçava, a enorme unha do dedo mínimo cortou superficialmente o rosto.

Violão. Aprendera exclusivamente para tocar músicas que traziam paz para ela, gostava do seu rosto sereno. Apararia as unhas e quebraria o instrumento maldito em pedaços, num golpe só, como faziam os antigos roqueiros querendo se expressar. Sempre gostou mais de instrumentos de sopro. Decidido: tocaria sax em breve. Uma tímida gota de sangue escorreu pelo arranhão no rosto e ele o enxugou.

Vermelho. Cor favorita dela. Uma vez ele cortou-se com a faca enquanto fazia um molho de tomate e ela correu para estancar o sangue. Pelo visto não era por cuidado, era porque gostava de ver a cor. Como tinha sido estúpido! Agora fazia sentido. Tiraria tudo de vermelho que houvesse na casa e não comeria mais tomates, teria pavor deles pelo resto da vida.

Chegando em casa, Damon foi tomar um banho. Pegou a lâmina para se barbear, mas largou-a. Vestiu-se com a camisa que acabara de usar e colocou um casaco vermelho por cima. Cortou tomates e fez um molho para o macarrão. Enquanto cozinhava, começou a tocarcom o violão maldito a música “Peixeiro” da banda Apanhador Só. Repetiria esse ritual duas ou três vezes até que não sentisse mais nada. Esboçou um sorriso. Era o início do fim.

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8 comentários:

Jaynne Santos disse...

Haha, é sempre assim mesmo.
A gente sempre engana a nós mesmos, fingimos que vamos esquecer a pessoa que amamos e no mesmo segundo estamos lá, pensando nela!
Grande beijo!

Jaynne Santos disse...

Ah, estou seguindo-te.
Porque não adiciona um bloco de seguidores ao lado? Facilitaria que as pessoas seguissem seu blog.
É só uma opnião claro.
Gosto muito daqui.

Juciele Alves disse...

Amei Heldimmmmmm, é a mais pura verdade, agente p/ esquecer fica lembrando o tempo todo ahuahuahua...

Luan disse...

Se foi importante, é melhor guardar o que foi bom do que apagar o que, um dia, se fez parte de nós. Sim, isso soou muuuito auto-ajuda.HAuehauheuae. Massa demais, Hélder!

Luan disse...

Vale esclarecer que o que soou auto-ajuda foi o meu comentário, e não o texto. Auto-ajuda é tosco, o texto é bom por demais. o/

Lucas disse...

Tomar decisões... nem todos sabem. uhuehueh... curti a sequência que liga à primeira palavra do próximo parágrafo... me lembrei da revista Superinteressante!

Massa, man!

Jéssica Trabuco disse...

É mesmo assim.
Não consegue deixar de fazer coisas que nos lembram o amor.

Justonemore disse...

Apanhador Só, ótimo ^^
Amei o texto...