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Desencontros (4)

Adolfo trabalhava no departamento de achados e perdidos de uma universidade e ficava impressionado como as pessoas perdiam coisas tão importantes, muitas vezes de valor alto. Também apareciam trecos curiosos como meias, mecha de cabelo, diário com cadeado e até cueca. Ele, como um metódico incorrigível, classificava em categorias de data, tipo, tamanho e urgência as coisas que chegavam até ali. Repudiava a procrastinação e, consequentemente, a desorganização.

Naquele dia o faxineiro da universidade chegou com algumas carteiras de identidade e colocou sobre a mesa. Adolfo levantou-se imediatamente e foi conferir os nomes para cadastrar no sistema: “Carlos Mascarenhas, Otacílio Nunes... Lívia Damasceno... Lívia Damasceno...”. Começou a repetir mentalmente o nome da última, pois estava numa espécie de encanto. Sua teoria de que as fotos 3x4 captavam o pior das pessoas acabava de ser quebrada.

Lívia era simétrica, perfeita, tinha cabelos curtos e lisos de cor castanha, pele branca, olhos mais azuis que um céu alegre desses de verão. O nariz era pequeno e levemente arrebitado, os lábios de um tom vermelho claro conseguiram burlar o protocolo e dar um sorriso meia-boca. Teve uma vontade absurda de roubar a identidade até que a separou das outras e continuou com a tarefa.

Contrariando completamente sua habitual organização, colocou a identidade por baixo do vidro que cobria a mesa, embaixo de suas vistas. Quando casualmente a rádio tocava uma música romântica, ele admirava sua paixão platônica, alfinetando o próprio bom senso e sanidade. De repente e desesperou-se ao lembrar que ela poderia aparecer a qualquer momento para pegar o documento.

Como reagiria? Ela gostaria dele? Como conseguiria o telefone dela? Neste momento, apareceu uma mulher aflita na janela de vidro por onde ele se comunicava com os cabeças-de-vento. Ele aproximou-se. Era ela. Mais linda que na foto 3x4, pois a resolução era em tamanho real. Não havia dado tempo de responder as questões iniciais, então gaguejou:

- B-Boa tarde.
- Boa! Meu nome é Lívia Damasceno e perdi minha identidade, será que ela está aqui?
A voz dela era suave.

- Sim, está... Está sim. – Disse Adolfo em meio ao mesmo encanto anterior.
- Ah, que alívio! Como sou desastrada! Obrigada!

De repente o encanto quebrou-se com a palavra "desastrada". Agora Lívia parecia bem menos atraente e sua voz soava sonolenta. Não tentaria mais nada com ela. Acabara de ter outra desilusão metódico-amorosa.

Enquanto caminhava, Lívia discava um número e aguardava a chamada. A pessoa do outro lado da linha atendeu:

- Oi, mana! E aí? Conseguiu achar?

- Claro, sua cabeça-de-vento, – Lívia dizia em tom de deboche – sua sorte é me ter como irmã, gêmea ainda por cima. Consegui me passar por você (papel de vítima atrapalhada) e pegar sua identidade com aquele gatinho do achados e perdidos. Ele parece ser bem organizado e metódico como eu... Pena que é um tanto estranho, devo dizer...

6 comentários:

Teka Almeida disse...

Preciso de um reencontro! Portando a esperança do texto de Binho eu quero acreditar que mesmo depois de um grande desencontro pode haver uma nova chance...

Muito bom o seu texto, como sempre!
Beijos, meu amigo talentoso!

Luan disse...

Serei metódico em meu comentário...kkk
Meu lado de estudante de Direito quer dizer que falsidade ideológica é crime!
Mas meu lado de amigo e leitor quer dizer que o texto tá excelente, como sempre. xD
Jogando demais, Hélder!!

Diego disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucas disse...

Aproveitando a deixa de Luan... meu lado de leitor diz que tá o bixo e que é massa demais ser surpreendido. Meu lado de resenhista diria "FUUUUUUUUUUUUUUUUU" para Adolfo. hauhsuahsuahsuahusahushauhs ;D

Abraço, Heldão!

Lua Durand disse...

Desencontros.
Tão banais, tão comuns, tão sérios.
Um desencontro encontrado e uma vida inteira pode mudar.

Gosto das suas perspectivas Hélder!

Um cheiro

Marcus Avelar disse...

Esse lance de desencontro é um eterno vai-e-vem mesmo. Sensacional.