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Guardar é deixar

- Merda! - Resmunguei.

O cofre jazia em pedaços no chão de madeira. O porquinho não carregaria mais moedas. Várias delas se espalhavam pelo chão, formando um mar de economias. Meus olhos ficaram marejados, não sei ao certo o porquê. Um misto de sentimentos embrulhava meu estômago: raiva por ser atrapalhado, saudosismo por saber que acabava ali toda uma história, lembranças sortidas. Há quanto tempo mesmo eu tinha aquele porco?

Sentei-me em volta das moedas. Lembrei do dia em que ganhei o cofre da minha mãe, descrente que deixaria dinheiro parado. Ela dizia: “não se subestime, Tales, você terá êxito”. A primeira moeda – procurei-a olhando em volta – a mais brilhante de todas elas, foi meu pai que me deu. Lembro do seu sorriso largo e verdadeiro que tive a honra de herdar. Saudade dos meus pais.

Cada moeda tinha uma história: a riscada, de cinquenta centavos, foi do meu amigo Marcos que dava boas gargalhadas ao lembrar que eu tinha um porquinho. A pequena moeda de cinco centavos com um adesivo de coração era da minha amiga Letícia, ela dizia: “pra você não reclamar que eu não contribuí com nada”. Outra de vinte e cinco centavos era da minha ex-namorada Luísa que mandou marcar nossos nomes nela.

Eu sorria, despercebido, ao me lembrar dessas coisas. Quantos doces eu deixei de comer? Muitos. Deixei de gostar das balas de coca-cola e os chicletes de tutti-frutti me eram intragáveis com o passar do tempo. Quantas vezes surrupiei o troco do pão e do leite? Várias. Corria para o cofre ao chegar em casa e colocava as moedas lá, afobado. Quando meus pais perguntavam onde estava o troco, já era tarde. Faziam cara feia, mas não se chateavam de verdade. Era uma espécie de incentivo mudo.

Não derramei as lágrimas que mereciam essas lembranças, tornei-me econômico até com elas. Minha mente alertava que já era tarde e eu precisava traçar o próximo passo. Colocaria as moedas num novo cofre para recomeçar? Gastaria? Deixaria ali no chão? No fim ignorei todas essas hipóteses. Como um bobo, sorri ao perceber que o êxito que minha mãe pregava era o desapego. Após tanto tempo me privando das moedas, senti que não eram minhas.

- Filho, venha aqui! - Gritei.

5 comentários:

@jujubahia disse...

Gostei da ideia das sucessões! ;D
;*

Diego disse...

E quem nunca surrupiou o troco do pão?

Miguel Dutra disse...

Recordar a frase da mãe de Tales no final do texto e chamar o filho foi perfeito.
Parabéns, amigo. Belo texto.

Juciele Alves disse...

Eu senti a mesma coisa quando quebrei meu porquinho... quanto chiclete eu poderia ter comprado rsrs, muito bom como sempre Heldinnnn

Luc disse...

Muito bom Helder. Muito bom.