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Achados e Perdidos SA #3.4 - Final

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

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Os moleques corriam e à medida que se afastavam, iam retirando os farrapos que estavam vestindo. Por baixo, vestiam camisas sociais e gravatas. O que portava a pasta, retirou seu IPhone de um dos malabares que carregava e discou certo número.

Benjamim recebeu um toque e sorriu. Novamente sua confiança em relação a um plano não foi traída. Nunca ficava aflito durante a execução, apenas observava e aguardava resultados que, de alguma forma, já sabia quais seriam.

Ícaro assistiu toda operação ao lado de Escobar e Benjamim no prédio da Achados e Perdidos. Ficou aliviado quando viu que a pasta estava nas mãos do pessoal do seu contratado. Alguns instantes depois, ele e Benjamim aguardavam a chegada da pasta.

- Vocês são incríveis! Eu sei que você já havia me explicado o plano antes, mas não consegui entender algumas coisas... Por exemplo, como conseguiram que o carro quase atropelasse o cadeirante?

- Manipulação de trânsito, coisa do Escobar. Não me peça pra detalhar, eu não sei.

- Sensacional! Outra dúvida que me incomoda: como conseguiu algum cadeirante louco o suficiente pra interpretar esse papel?

- Cadeirante? Óbvio que não. É de um dublê de filmes de ação. Ele saberia exatamente o que fazer caso algo desse errado.

- Interessante... E se os atores que interpretaram os “trombadinhas” não conseguissem aquele time para pegar a mala?

- Uma falsa viatura estaria pronta para levar os seguranças e os japoneses sob custódia pelo suposto atropelamento e apreenderiam os objetos que estavam com eles.

Um homem bateu na porta da sala e deixou a pasta em cima da mesa. O objeto ficou exatamente entre Benjamim e Ícaro.

- Plano muito engenhoso! Obrigado! – Ícaro batia palmas.

- Não mais engenhoso que você. – Benjamim replicou de forma seca.

Houve uma mudança sutil na expressão de Ícaro, que até então só havia olhado para a pasta. Agora encarava o homem à sua frente com uma risada nervosa.

- Como assim? Não entendi...

- Ícaro, vou usar as mesmas palavras que você usou comigo: “não sei se devo aceitar seu agradecimento. Fiz meu dever de casa antes de aparecer aqui. Conheço sua empresa tão bem quanto a minha.”

A mudança, antes sutil, agora era tão evidente que parecia não se tratar da mesma pessoa. Ele abriu a pasta às pressas e dentro dela havia apenas alguns documentos, nenhum com relação à empresa.

- Onde está o dinheiro?! – Ícaro levantou-se e gritou em tom de ameaça.

- Dinheiro? Que dinheiro?

Ícaro calou-se.

- Talvez você ignore o fato de que a minha empresa não faz trabalhos sujos. Ajudar sua empresa a não falir seria algo nobre, já que os seus funcionários não tem culpa alguma desse grande problema financeiro. Este se deve a apenas uma pessoa que você conhece muito bem.

Ícaro desabou na cadeira.

- Pelo visto, você já sabe de tudo. – Disse ele, com desânimo.

- Sim, seu pai, o dono da empresa, vem retirando grandes somas há muito tempo para esbanjar riqueza.

- Não, não é isso... Você não entende... Meu pai está doente, depressivo. Ele usa o consumo como uma droga para tentar ser feliz. Por mais que fosse errado eu não consegui negar, ele implorou que eu viesse até você...

- Com a brilhante idéia de ser pago duas vezes: uma através do roubo e outra pelo contrato já fechado.

- Sim... O pagamento pelas construções não é suficiente para cobrir o rombo.

- A reunião seria para fechar o contrato e não para tratar de que questões burocráticas anteriores. E mais, você pediu para que os japoneses mostrassem o pagamento em dinheiro “vivo”.

- Sim, correto. Só não entendo o porquê desse teatro se você já sabia minha verdadeira intenção...

- Eu me recuso a desperdiçar minhas idéias.

- Afinal, onde está o dinheiro?

- Nunca saiu do carro.

- Como não? Eu vi!

- A pasta que foi roubada estava apenas com alguns documentos do japonês da esquerda. A verdadeira pasta, com todo aquele dinheiro, estava aos cuidados do segurança que fala português. Ele é um dos meus.

- Não é possível... – Ícaro misturava desespero e admiração na voz. - Como conseguiu substituir o segurança deles?

- Ele teve um pequeno problema no embarque, você sabe como são essas coisas. Os executivos foram obrigados a entrar em contato com uma empresa de segurança aqui do Brasil. Você já deduziu o resto.

- Sim, eu me rendo. Você vai me denunciar, não é?

- Se eu tivesse a intenção de te denunciar, não teria impedido o roubo. Eu acredito que existem decisões erradas baseadas em emoções, mas também acredito em segundas chances.

Ícaro calou-se novamente.

- Você só vai ajudar seu pai encaminhando-o para um tratamento. E se vocês bolaram esse plano pra tentar me usar como laranja, vocês vão reerguer a empresa. Sugiro que corra atrás dos japoneses antes que eles se assustem e voltem pra casa.

Ícaro levantou-se e saiu. Ao fechar a porta disse um tímido “obrigado”. Depois de um dia tão agitado, Benjamim só podia fazer uma coisa: continuar calculando a velocidade da sua cadeira de rodinhas.

4 comentários:

Jéssica Almeida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jéssica Almeida disse...

Escrito por você eu tinha certeza que o final seria além da previsibilidade', E realmente minhas expectativas foram superadas! Além de nada previsível, foi incrivelmente bem bolado! E a frase: “não sei se devo aceitar seu agradecimento (...)" gostei muuito! :D
Dá muito gosto de ler mais um de seus textos escelentes!
Parabens! =]

Jéssica Almeida disse...

excelentes* ¬¬

Luan disse...

Inventividade digna de um conto de Sherlock Holmes.
Sir Hélder Conan Doyle, sempre melhor. Muito bom, cara. xD