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Encontros (1)

E aí, leitores do ótica! Peço a colaboração de vocês para essa nova experiência: escutar essa música (com o volume baixinho) enquanto leem o conto de hoje. É um "texto com trilha sonora", algo que pretendo implementar. Para isso, preciso da opinião de cada um (caso seja difícil ouvir música durante a leitura, escutem antes ou depois). Boa leitura!


Os olhares se cruzaram e seus donos não fizeram questão de desviar. Caso um desvio ocorresse, devia-se unicamente ao movimento truncado do ônibus. Os dois identificaram a música bem ritmada que tocava no rádio do motorista, era Clocks, Coldplay, na versão do Buena Vista Social Club. Ele, por volta dos vinte anos e aparência adolescente, estava próximo à entrada do ônibus. Ela, de um estilo peculiar e aparência delicada, encontrava-se próxima à saída. Entre os dois, várias pessoas lutavam por espaço.

Ele pensou em tentar alguma comunicação, mas a menina desviou o olhar para dentro da mochila que carregava. O rapaz acompanhava seus movimentos. Ela retirou um pincel de dentro da mochila e escreveu alguma coisa na parede do fundo do ônibus. Feito isso, encarou o rapaz mais uma vez, agora com um olhar instigante, deu o sinal e desceu em seu ponto.

Ele ficou intrigado. Seria ela uma adolescente que se divertia ao deteriorar o patrimônio público ou uma mulher misteriosa? Não importava, os dois tipos eram fascinantes. Aguardou pacientemente até conseguir enxergar o que ela havia escrito. Tentou esconder a ansiedade, mas as pessoas perceberam algo estranho em seu comportamento. O momento havia chegado. 

Surpreendeu-se ao ver quatro dígitos. Provavelmente de um número de celular. Logo abaixo deles, estava escrita a frase “não acredito em acaso”. Pelo visto ela era a segunda opção de mulher. Memorizou os quatro dígitos e colocou-os na agenda do celular enquanto descia do ônibus. Tinha duas opções: esqueceria essa maluquice ou faria algo a respeito. Decidido: era maluquice, mas não poderia deixar de fazer algo a respeito.

Baseado no horário e no dia em que a encontrou, fez o possível para pegar o mesmo ônibus no dia seguinte e durante o resto da semana. O dia mais provável seria o mesmo, oito dias depois do acontecido. Ela não estava. Frustrado, ligou alguns fatos: a moça provavelmente estudava, pois carregava uma mochila; desceu num ponto próximo à universidade; e, poucos dias antes, estudantes dessa mesma universidade declararam uma paralisação para reivindicar direitos.

Resolveu ir até lá, deu o sinal e o ônibus parou. Uma multidão de jovens carregava faixas e bloqueava a estrada. Pensava mais uma vez se desceria ou não quando novamente os olhares se cruzaram e seus donos não fizeram questão de desviar. Ocorreu um brusco desvio. O motorista, furioso, arrancou com o ônibus por causa do suposto alarme falso do passageiro. Ao sentir o movimento súbito, o rapaz , desesperado, censurou-se duramente pela mania de pensar tanto.

Ela, que carregava um cartaz de protesto e se misturava aos jovens, percebeu a situação rapidamente e não pensou duas vezes: correu atrás do ônibus que, com dificuldade, arranjava uma rota alternativa. Enquanto corria, terminou de escrever alguma coisa no cartaz e levantou-o com energia, aos berros. Ele acompanhava seus movimentos. Era seu destino acompanhá-los. Anotou os dígitos restantes. Estava completo.



10 comentários:

Lucas disse...

Se permite, hermano... foi o melhor de todos! A idéia da música foi o bixo, quando se acostuma ela se torna parte da história! Jogou duro, véiu!

Nanda disse...

Sensacional! "Quando se acostuma ela se torna parte da história!" [2] Muito, muito, muuuito bom mesmo, Dinho! "Please, don't stop the music!" ;)

Professora Livia disse...

Além da música ser de mto bom gosto, o texto está lindo! Cada dia me surpreendo mais com esse blog!
Parabéns ;)

Gustavo Hermes Soares disse...

Muito bonitinho! Gostei do roteiro da história, adorei a ideia da música!
Abraços!

Anônimo disse...

É como se a música estivesse tocando na rádio do ônibus. E se o número tá completo, o texto tb tá. Genial, cara. o/

Diego disse...

sempre inovando, hein? muito show

thiagoreboucas disse...

Sensacional! Faço minhas as palavras do Lucas. A música faz parte da história e completa a história. O grande desafio dos grandes escritores é fazerem com que os leitores viajem na história, nas palavras. Isso só é possível para quem tem um pouquinho de imaginação, para enxergar o que as letras dizem. A música é um subsídio a mais, eu me senti dentro do ônibus...kkkk e adorei a viagem.
Parabéns! Ainda vou poder dizer um dia: "O conheci antes da fama.O 'gordinho' do BF!"
Abraçao
E

Alice Pio disse...

Acho bom que seja normal se arrepiar quando ela finalmente completa o número, porque foi o que aconteceu comigo...

Sabe o que eu mais gosto nos seus textos? é que os personagens são inteligentes e sagazes... odeio gente "coitadinha" que espera as coisas caírem no colo. Mas acho que essa inteligencia toda é só o que transborda do autor.

Qualquer dia copio umas ideias suas... vai ser uma honra ser acusada de plágio por alguém tão talentoso!

Curti demais, Heldinho

Thaise Nogueira disse...

Muito bom, consegui imaginar uma história real, tantooo, que acho que deveria ter continuidade hahaha

heelder disse...

Hmmmm, obrigado! Quem sabe, né... Quem sabe...