E aí, leitores do ótica! Peço a colaboração de vocês para essa nova experiência: escutar essa música com o volume baixinho enquanto lêem o conto de hoje. É um texto com trilha sonora, algo que pretendo implementar. Para isso, preciso da opinião de cada um (caso seja difícil ouvir música durante a leitura, escutem antes ou depois). Boa leitura!
Os olhares se cruzaram e seus donos não fizeram questão de desviar. Caso um desvio ocorresse, devia-se unicamente ao movimento truncado do ônibus. Os dois identificaram a música bem ritmada que tocava no rádio do motorista: Clocks, Coldplay, na versão Buena Vista Social Club. Ele, por volta dos vinte anos e aparência adolescente, estava próximo à entrada do ônibus. Ela, de um estilo peculiar e aparência delicada, encontrava-se próxima à saída. Entre os dois, várias pessoas lutavam por espaço.
Ele pensou em tentar alguma comunicação, mas simultaneamente a menina desviou o olhar para dentro da mochila que portava. O rapaz acompanhava seus movimentos. Ela retirou um pincel de dentro da mochila e escreveu alguma coisa na parede do fundo do ônibus. Feito isso, encarou o rapaz mais uma vez, agora com um olhar instigante, deu o sinal e desceu no seu ponto.
Ele ficou intrigado. Seria ela uma adolescente que se divertia ao deteriorar o patrimônio público ou uma mulher misteriosa? Não importava, os dois tipos eram fascinantes. Aguardou pacientemente até conseguir enxergar o que ela havia escrito. Tentou esconder a ansiedade, mas as pessoas perceberam algo estranho em sua expressão. O momento havia chegado.
Surpreendeu-se ao ver quatro dígitos, provavelmente de um número de celular, e logo abaixo a frase “não acredito em acaso”. Pelo visto ela era a segunda opção de mulher. Memorizou os quatro dígitos e colocou-os na agenda do celular enquanto descia do ônibus. Tinha duas opções: esqueceria essa maluquice ou faria algo a respeito. Decidido: era maluquice, mas não poderia deixar de fazer algo a respeito.
Baseado no horário e no dia em que a encontrou, fez o possível para pegar o mesmo ônibus no dia seguinte e durante o resto da semana. O dia mais provável seria o mesmo, oito dias depois do acontecido. Ela não estava. De repente ele ligou alguns fatos: a moça provavelmente estudava, pois carregava uma mochila, desceu num ponto próximo à universidade e, poucos dias antes, estudantes dessa mesma universidade declararam uma paralisação para reivindicar direitos.
Resolveu ir até lá, deu o sinal e o ônibus parou. Uma multidão de jovens carregava faixas e bloqueava a estrada. Pensava duas vezes se desceria ou não quando novamente os olhares se cruzaram e seus donos não fizeram questão de desviar. Ocorreu um brusco desvio. O motorista, furioso, arrancou com o ônibus por causa do suposto alarme falso de descida de passageiro. Ao sentir o movimento súbito, o rapaz desesperou-se e se censurou duramente pela mania de pensar tanto.
Ela, que carregava um cartaz de protesto e se misturava aos jovens, percebeu a situação rapidamente e não pensou duas vezes: correu atrás do ônibus que, com dificuldade, arranjava uma rota alternativa. Enquanto corria, terminou de escrever alguma coisa no cartaz e levantou-o com energia, aos berros. Ele acompanhava seus movimentos. Pelo visto, era seu destino acompanhá-los. Anotou os dígitos restantes. Estava completo.
8 Ponto(s) de Vista:
Se permite, hermano... foi o melhor de todos! A idéia da música foi o bixo, quando se acostuma ela se torna parte da história! Jogou duro, véiu!
Sensacional! "Quando se acostuma ela se torna parte da história!" [2] Muito, muito, muuuito bom mesmo, Dinho! "Please, don't stop the music!" ;)
Além da música ser de mto bom gosto, o texto está lindo! Cada dia me surpreendo mais com esse blog!
Parabéns ;)
Muito bonitinho! Gostei do roteiro da história, adorei a ideia da música!
Abraços!
É como se a música estivesse tocando na rádio do ônibus. E se o número tá completo, o texto tb tá. Genial, cara. o/
sempre inovando, hein? muito show
Sensacional! Faço minhas as palavras do Lucas. A música faz parte da história e completa a história. O grande desafio dos grandes escritores é fazerem com que os leitores viajem na história, nas palavras. Isso só é possível para quem tem um pouquinho de imaginação, para enxergar o que as letras dizem. A música é um subsídio a mais, eu me senti dentro do ônibus...kkkk e adorei a viagem.
Parabéns! Ainda vou poder dizer um dia: "O conheci antes da fama.O 'gordinho' do BF!"
Abraçao
E
Acho bom que seja normal se arrepiar quando ela finalmente completa o número, porque foi o que aconteceu comigo...
Sabe o que eu mais gosto nos seus textos? é que os personagens são inteligentes e sagazes... odeio gente "coitadinha" que espera as coisas caírem no colo. Mas acho que essa inteligencia toda é só o que transborda do autor.
Qualquer dia copio umas ideias suas... vai ser uma honra ser acusada de plágio por alguém tão talentoso!
Curti demais, Heldinho
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