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Ensaio Sobre o Desapego

Abraçar um gosto ou afeição significa ser abraçado pelo mesmo. Quanto mais possuo, mais corro o risco de ser possuído. Refletido em minhas posses, como num espelho quebrado, me reduzo a cada uma delas. Como ter tanto e ser tão pouco? Surge uma nova crise de identidade: não sei o que sou porque não sei o que tenho. Procuro ter. Vendo um dos rins para comprar um IPad 2.

Ter não é ser, é estar. “Estar” é ilusório, porque quando eu penso que é, já não é mais. Eu me convenço: tenho minha casa. Vêm enchentes e levam-na embora. Eu me convenço: tenho razão. Vêm argumentos e levam-na embora. Eu me convenço: tenho pessoas (aqui cabe uma ressalva: é o tipo mais comum, dolorido e propício de engano). Vem a vida e levam-nas embora.

Supervalorizar o "ter" gera apego e desvalorizá-lo gera indiferença. O apego causa dor se desapegado, a indiferença causa dor despercebida. São extremos e, por isso, suas dores também são. Valorizar é a real idéia de desapego. Para cada ausência de valor, uma falta. Quando compreendo a falta, a dor toma sua proporção real (ela não deixa de acontecer).

Então, existe morfina para essas dores frequentes e extremas: valorizar (desapegar). Seria simples se eu não confundisse o valor das coisas facilmente (partes do corpo por aparelhos tecnológicos?)... Mas posso começar a treinar pelos “meus” livros (já lidos), que podem estar na estante apenas por uma infeliz idéia de coleção ou enfeite. Acomodados lá, eles não chegam até outras pessoas que desconhecem seu conteúdo e ocupam o espaço de livros não lidos.
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Obs.: Penso em trocar por outros livros “O Retrato de Dorian Gray”, “O Médico e o Monstro”, “A Tulipa Negra”, o volume 20 do mangá “Naruto”, alguns livros de Agatha Christie e etc. Quem estiver interessado é só me falar! Abraço!


5 comentários:

Lucas disse...

ah!... o desapego há.

Anônimo disse...

O texto me fez inverter a frase "A gente é aquilo que a gente tem". Cabe agora pensar que só temos o que realmente somos, e somos todas as coisas e ideias e pessoas que nos constroem. E valorizar esses coisas (desapegar-se) é mudar de anagrama, do "uso" para o "sou".
Mandando sempre bem, Helder. o/

Pedro Ivo disse...

Vale pensar que aquilo que nos é dado (coisas, situações e/ou pessoas) nada mais é do que ferramenta para modificação da realidade... então, há de se modificar a realidade alheia sempre, de forma benéfica, já que agir somente para consigo é ap-ego também, e o pior deles, aliás.

andreia_s_cn disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
andreia_s_cn disse...

Me fez lembrar de tudo o que sou, o que penso,minhas vontades,enfim,a cada dia vivêncio um eterno desapegar-me,por mais que eu queira pensar que eu tenho e que posso ,mas do que nunca tenho assumido a frase será que devo?Beijos filhão,te amo um tantão..................
Andréia