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A Queda

Quanto mais precioso o objeto em queda, maior a satisfação. Isso era invariável, a despeito de qualquer prejuízo. Quando bebê, Carlos atirou a mamadeira pela janela do carro e sentiu-se bem por não carregá-la mais. Desde então ele atira objetos pela janela do seu escritório, da sua casa e do carro porque sente-se bem ao fazê-lo. Havia um objeto em especial que ele observava há algum tempo. Passava por ele todos os dias e sentia uma grande necessidade de possuí-lo. Seria perfeito para arremessar pela janela.

A cada fio que caía, Carina sentia um nó na garganta. A queda do cabelo conseguia ser algo mais difícil que ficar internada, mais difícil que tomar remédios, mais difícil que ficar isolada, mais difícil que enxergar só olhares de compaixão. A quimioterapia era uma tentativa necessária contra o câncer, mas porque tinha que afetar seus lindos cabelos? Olhou no espelho e constatou que sua pele estava muito pálida, seus olhos muito pequenos, seus lábios muito finos e seu nariz muito estranho.

Lisa odiava ter que admitir dependência, mas tinha uma queda por ele. Ela fazia de tudo para não pedir nada desde pequena. Nunca pediu o troco do pão (simplesmente chegava em casa com doces e distribuía-os para as irmãs e os pais). Nunca pediu ajuda com as tarefas escolares. Nunca pediu para repetir a sobremesa. Não se orgulhava de sua independência doentia, mas não podia ceder. Logo, estava em grandes apuros desde que sua felicidade passou a depender de um homem.

Sem retirar os olhos do seu objeto de desejo, Carlos terminava uma reunião em seu escritório. Mal podia esperar para sentir de novo aquela sensação. Após despedir-se, impaciente, de todos que estavam na sala, chamou sua secretária e ordenou que ninguém o incomodasse. Ficou louco. Retirou o terno, dançou extasiado pela sala e aproximou-se lentamente da janela. Estava vidrado. Sua diversão fitava-o. Pegou-a pela mão. Segurou-a pela cintura, ergueu-a.

Carina viu vários fios de cabelo no travesseiro e sentiu vontade de chorar. O mundo continuava barulhento, mas ela não se incomodava mais. Queria se misturar ao barulho e tornar-se parte de sua confusão, tornar-se imperceptível. Queria sair por ali mesmo, pela janela, esse retângulo mágico que dava em lugares diferentes. Não podia. Cair do oitavo andar seria mortal (um pensamento sombrio passou por sua cabeça). Antes que pudesse se dar conta do que sua mente articulou, viu algo estranho no prédio em frente e ficou apavorada. Um homem acabava de atirar uma mulher pela janela!

Lisa precisava vê-lo. A necessidade a machucava. Ele a convidou para sair, mas não a sós. Uma turma iria ao cinema e ele fez questão que ela fosse. Por fim, a necessidade venceu. Ela cedeu e teria que ceder mais se quisesse suprir sua necessidade de vê-lo: teria que tomar a iniciativa. Ele não enxergava nada, era um bobo. Não, não era ele. Ela que nunca pediu nada e parecia muito independente e isso o assustava. Arrumou-se, estava se sentindo bem, faria seu pedido. Saiu de casa e começou a caminhar timidamente. A coragem ia abandonando-a aos poucos. De repente, foi atingida por algo e perdeu os sentidos.

Carlos despertou do transe ao perceber que seu hobby acabara de fazer uma vítima. Desceu as escadas do prédio o mais rápido que pode. Na calçada, jazia o corpo de uma moça muito bonita (mesmo em desespero ele não pode deixar de notar). Estava desacordada e sua cabeça sangrava muito. Por sorte, havia um hospital logo em frente e ele chamou os enfermeiros. Não sairia do lado de sua vítima até saber como ficaria. Segurou a identidade dela. Chamava-se Lisa. Sentia-se envergonhado por atirar uma manequim pela janela. Sentia-se muito envergonhado por quase matar alguém por algo tão bobo. Jurou que nunca mais faria algo tão absurdo e imprudente. Não sofreria mais pela queda.

Carina acompanhou a cena e ficou curiosa para saber que fim levou a moça. No fim das contas não era uma mulher que o homem jogava pela janela, era uma manequim! Após um tempo, perguntou para as enfermeiras como estava a pobre vítima e soube que a mesma teve que raspar a cabeça para dar alguns pontos, não reclamando em momento algum. Normalmente Carina teria ficado irritada com a indireta que acabava de levar, mas não agora. Ao contrário, a morte tão próxima e o fato de outra mulher ter ficado careca acenderam nela uma coragem que ainda não conhecia. Pegou a máquina e com ela fez um movimento que foi da testa à nuca. Não sofreria mais pela queda.

Lisa conheceu Carlos. Ele contou toda a história, desabafou sobre seu vício secreto, pediu desculpas uma centena de vezes e se colocou à disposição para o que ela precisasse. Ao invés de ficar com raiva, Lisa aceitou escutá-lo, compreendê-lo e desculpá-lo. Também aceitou favores e começou a pedir coisas. Pediu para que ele desse comida na boca dela. Pediu para que ele trouxesse livros, músicas, pelúcias e filmes. Ela estava treinando duro para fazer um pedido maior.

 - Você poderia trazer um amigo meu aqui? Preciso falar com ele - disse ela.
Não sofreria mais pela queda.



9 comentários:

Lucas disse...

voce tem se mostrado em grande escritor de textos grandes.

Diego disse...

Como você consegue escrever tão bem? hein? hein?

Agnes Aguiar disse...

Foi gostoso perceber que Carlos, Carina e Lisa, ao final do texto, deixaram de sofrer por suas quedas. Fiquei feliz por eles. (:

Muito interessante essa junção, Hélder!

:*

Luma Rosa disse...

Parece um roteiro! Gosto desse vai e vem de cenários! ;) Beijus,

Eolo, Senhor dos Ventos... disse...

Simbólico, casual e humano.
Gostei mesmo!

É bom passar por aqui, meu amigo, depois de tanto tempo.

Você cresceu muito como pessoa, como escritor...

Enfim, um abraço.

Jéssica Almeida disse...

Como não poderia deixar de ser, texto incrível de um escritor incrível!
Tramas entrelaçadas, histórias nada previsíveis, bom de se ler, bom de imaginar as cenas, bom de se admirar :)

Crispi. disse...

Eu adorei! Há tempos que eu não vinha mais aqui. É que eu andava sofrendo pela queda, sabe?

Daniel disse...

Os músicos inevitavelmente acabam sendo influenciados por seus ídolos e registram uma marca que os identificam. Assim, são também os poetas e grandes escritores. Nesses anos em que aqui visitei, percebi uma grande evolução em suas habilidades, todavia, conserva a mesma forma de escrever. Começa os textos de maneira reconhecida, a descrição dos personagens e cenários são parte importante e a trama se encerra de modo imprevisível que nos provoca a ir até o fim. Parabéns cara!

Teka Martins disse...

Que paixão nessa história...uma delícia, a cereja da minha noite!