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Com açúcar, com afeto

Maria trabalhava na lanchonete da esquina. Toda sua graça em gestos e formas me deixava fora de órbita por alguns instantes. Chegava a tomar café várias vezes na tarde só para ter a oportunidade de pedir algo a ela e ter uma resposta positiva. Não sei como ela me conquistou, talvez tenha algum encantamento nessa bebida quente, forte e escura. Dona Florinda fez o mesmo com o Professor Girafales. Basta um gole para que eu saiba seu estado de espírito: amargo, quente, sem graça, comum, frio.

Certo dia o café estava muito doce. Não gostei nem um pouco do acréscimo de açúcar na bebida e de sorrisos em seus olhos. Será que Maria havia se apaixonado por outro? Como não havia notado antes? Acho que minha percepção tinha sido prejudicada pelas noites que passei insone. Não por causa dessa linda mulher, mas pelo café que tomo em excesso. A realidade sem Maria não me interessava, quando voltava pra casa eu preferia dormir para sonhar com ela.

Voltei à lanchonete no dia seguinte e Maria dava trela para um sujeito. Boa pinta, mas tinha cara de cafajeste. Numa tentativa desesperada de evitar algum contato maior entre os dois, fiz o pedido de sempre. Maria suspirou e foi me atender com aquele sorriso amável, não sei se era simpatia por mim ou clichê do serviço. O café continuava doce, maldição. Era esse o sujeito que a fazia perder a mão, o cara que dava açúcar ao café. Senti nojo.

Tomei coragem. Larguei a xícara. Fui me aproximando dos dois e já não podia mais parar, todos olhavam para mim e qualquer passo que não fosse para frente seria estranho. Cheguei até os dois, o cara parecia muito maior de perto. Ficaram me encarando com expressões de estranheza, mesmo assim, Maria esboçava seu sorriso de sempre. Percebi que ela iria falar algo, mas eu me antecipei:

- Moça, e-eu te amo.

Maria sorriu, mas não muito, não queria me deixar constrangido. Passou a mão na minha cabeça, bagunçando meus cachos, e disse:

- Prometo esperar você crescer. Esse aqui é meu irmão, Eduardo, é com ele que você vai ter que falar daqui uns anos.

Dei um sorriso inocente, daqueles que só as crianças de sete anos tem. Pisquei pra Maria, apertei a mão de Eduardo (em sinal de respeito) e fui embora. Maria foi meu primeiro amor, minha primeira namorada e meu relacionamento mais longo.


12 comentários:

Diego disse...

Como sempre, muito bom!

Alice Pio disse...

Acho que o primeiro amor, assim, aos sete anos, é sempre o melhor de se lembrar, porque sempre sobram dele só as coisas boas. O que é ruim não tem vida tão longa.

Lindo texto, Heldinho... bonitinho demais da conta!

Pedro Ivo disse...

Fantástico! Você é um cronista/contista como não se vê mais, Heldão! Quanto talento!
Meus parabéns!

Daiane disse...

Caramba! Muuuuito bom Heldinho, muito mesmo.

Marcus Avelar disse...

Sensacional, vamo escrever um livro.
Tem um jornalista que faz umas crônicas maneiras também, depois dá uma olhada lá: http://xicosa.folha.blog.uol.com.br/

_Abraço.

Juliana S. Santos disse...

Oun, que bontinho. Inteligente e objetivo, gostei, Reldinho ;)

Laís Freitas disse...

Muito bom. E eu, que ultimamente só tenho escrito versos, fiquei até com vontade de voltar pras crônicas! Parabéns!

Laís Freitas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jéssica Almeida disse...

Que fofinho! Consigo até imaginar o sorriso meigo de Maria e o ar de vitória do menininho =]
Muito lindo, e muito bom!

Lucas disse...

Moooos eu cai do cavalo de acordo! Heldão, isso dava uma bela propaganda, sabia?!

Nanda disse...

Ôun! Coisa linda demais, minha gente! >.<

Anônimo disse...

Qualquer oligio fica clichê, na verdade.. sem palavras..rs Muito bom!