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Cama, mesa e banho


Sou capaz de ler o lençol branco que o vento balança ali no varal. Não é só pelo fato de ter como estampa a palavra "amar" em várias línguas. Leio também que estávamos enrolados nesse lençol, ora dando risadas e tentando pronunciar "amar" em alemão, ora traduzindo em gestos o que estava escrito. O vento faz ondulações no tecido neste momento e outrora minhas mãos saltavam as sete ondas do seu cabelo, buscando... sei lá... sorte?

Caramba, aquela mancha na toalha de mesa quadriculada ainda não saiu. Não fique nervosa de novo. Aquele dia eu derramei café nela, essas coisas acontecem, mas você começou a reclamar do meu jeito descuidado e uma coisa puxou outra, até que começamos a lavar a toalha suja ali mesmo. É o que dizem, não é? Espere aí, olha que engraçado: o vento fez o "lençol poliglota" dar uma volta até alcançar o outro varal e cobrir a toalha de mesa. Acho que não preciso ler esse capítulo pra você.

A toalha de banho está por um triz, o pregador não está segurando firme. Você me fez rir certa vez ao reclamar dessa toalha dizendo que ela não secava direito e que odeia coisas que não fazem o que foram feitas para fazer. Com sua maestria em mudança de humor, largou a toalha tranquilamente e se secou com o lençol poliglota mesmo, dando risadas. Eu observava e concluía que o que eu sentia ao ver aquela cena (você embrulhada com esse lençol) era amar. Num linguajar universal.
   
Ah, nossas roupas no varal. Antes de entrar em casa, sempre que for possível, eu contemplarei essa cena. Não, não é loucura, Clara, e sei que você está rindo e me chamando de brega. Veja se não tenho razão: nossas roupas penduradas no varal são literatura de cordel.


10 comentários:

Alice Pio disse...

Me identifico com Clara. Se é toalha de banho, que seque, né?!

Seu texto tá incrível, quando eu conseguir escrever assim, vou ficar feliz.

Excelente, como sempre!

Anônimo disse...

Velho, que genialidade é essa?
Texto incrível demais. Achei massa o jogo com o cordel!
o/

Anônimo disse...

Dá p/ acreditar que quando eu li a parte da toalha de banho fiz uma rápida identificação de que o pensamento da Clara parece com as falas de Alice.


Sensíveis e poéticas suas palavras, Heldinho.

Quando crescer quero ao menos tentar escrever coisas do cotidiano, assim, com tanta poesia.

Dudaviana do twitter ;)

Lays Macedo disse...

Um texto muito bem cabido... Em qualquer tempo, com um bom sentimento e um olhar bem atento.
Passarei a frequentar o blog mais vezes.

Juciele Alves disse...

Concordo, se é toalha tem que secar uai... Bom ler textos novos Gordinho... BJãoo

Jéssica Almeida disse...

Cenas tão lindas do cotidiano que pareceriam tão simples se não fossem escritas com tanta destreza e tanta poesia. Lindo texto :)
Incrível! (Esse incrível já ta quase virando um clichê, TODOS os seus textos são incríveis!)

;*

Lucas disse...

Que faça sol, que seque, ou que vente levando essa lembrança pra algum lugar, bom.

Bom.

Lucas disse...

Velho, esse foi muito FODA! Sim, esse é um comentário que não é pra ser escrito, mas se fosse pra dizer, seria isso!


Muito FODA, brother!

Alan SArdeiro disse...

A vida como se fosse uma literatura de cordel: simples, rimada e barata. Caro é o preço que se paga por não levar a vida assim.

Luma Rosa disse...

Caramba!! Sempre achei lindo roupas tremulando no varal, mas porque me lembrava da infância; Tempo que corria entre as roupas para sentir seu cheirinho.
Nunca pensei em cotidiano olhando para as roupas e elas têm histórias para contar!!
Ah, me lembrei de um texto e seria legal que lesse: http://sou-da-cris.nets.at/2011/08/20/lavando-a-alma/
Boa semana! Beijus,