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"Carpe filtrus solarium"


Aceitei que é convenção sonhar sobre profissão quando criança, mas nunca exercer quando adulto. Embora também tenha escutado que não vale a pena ficar lembrando o passado, vale a pena aproveitar o dia, carpe diem. Esse carpe diem soa tão forçado que chega dá preguiça... Merda de carpe diem, rapaz. Não quero aproveitar como a palavra soa: tão cheia de álcool ou tão cheia de “siga sempre sorrindo”.

Vamos ao real problema: não gostar do carpe diem, mas também não gostar da idéia de deixar de aproveitar o dia. Não gostar de um “use filtro solar”, mas acreditar que isso traz algum benefício.  Não gostar de um “vá ler um livro”, mas gostar dos livros. Não gostar de um “saia do computador”, mas acreditar que é de extrema necessidade deixar o hábito de passar quase 11 horas por dia olhando para essa querida vida virtual.

Me falta paciência pra estilo de vida, verdade, mas não que seja só isso. Essa coisa toda é incoerente. Carpe diem pode ser doença: "carpendiezar" adoidado e ainda ser triste, achando que não carpedieniza o suficiente. Encher a cara de filtro solar porque ouviu Pedro Bial dizendo que é pra usar, prolongando assim a saúde da pele e a doença do coração. Mudar de caminho todos os dias pra evitar a rotina (só não acho estupidez se for uma medida contra ladrões), mas continuar caminhando com a postura errada e os ombros tensos. Perda de significado, perda de tempo.

Realmente não é minha intenção te dizer o que fazer, já que eu acho que é isso que causa essa antipatia, mas talvez eu saiba o que fazer no meu caso. Não vou acordar com carpe diem na cabeça, nem espalhá-lo aos quatro ventos. Vou esquecê-lo até que a regra se torne exceção e recupere seu valor perdido. Vou sair mais do computador, mas porque tem significado pra mim. Vou enfrentar minha procrastinação, o violão, os livros, os exercícios físicos, quem sabe até usar filtro solar. Nessa confusão a gente até esquece que previne o câncer de pele.


11 comentários:

Juliana S. Santos disse...

Eu ainda sou pelo "andar caminho errado pela simples alegria de ser".
Detesto essas dicas "bem-estar" e autoajuda, pra empurrar pra debaixo do tapete, esconder atrás de um sorriso, uma vida vazia em sem sentido. Da mesma forma o politicamente correto, pra maquiar pensamentos e opniões. Carpe infernum ninguém quer, né?!

Pedro Ivo disse...

Contribuindo-parafraseando-escrevendo acerca o comentário de Jujubahia:

Tenho tentado ser mais "carpe diem" e menos "carpe noctem"... reconheço o estigma que a expressão carrega, mas isso é inevitável quando algo de densidade profunda cai ao gosto popular, o que não estraga, mas dá vazão a distorções semânticas; ligado ao campo filosófico, religioso, poético... cai como luva para mascarar vícios, estilos de vida, enfim.
tento não me enquadrar em "carpe" nenhum, mas carpir meu próprio dia, noite, tarde... madrugada, quem sabe, também. olho sem julgamentos certas atitudes e certos pontos de vista, e sem tentar me colocar num pedestal onisciente (me foi dito essa semana que o faço).
enfim, se for pra ser, que seja, sem medo de ser feliz; tendo responsabilidade para com o seu corpo e alma, nem destruindo-o com vícios crescentes, nem guardando-o demasiadamente em atos castos. que seja o equilíbrio, o conhecimento, o amor e o prazer. se não for fútil e for verdadeiro, pra mim tá valendo!
Bastante intimista o texto, Heldinho (já o chamei assim?).
Força na peruca, jogue demais o/

Tito Glasser disse...

Muito prazer em conhecer o seu blog e estarei colocando o link no meu. Ótimo texto!

Glauber disse...

Eu preciso ler isso mais umas duas ou três vezes.

Tá ligado quando você lê uma coisa e tem a sensação de 'issso foi pra mim'? Pois é.

Abraço, jovem!
Texto sensacional como sempre.

Juliana S. Santos disse...

No "aproveitar" não caberia imperativos.

Jéssica Almeida disse...

Me identifiquei tanto com o texto que até agora não sei o que comentar. Sabe aquela coisa de querer dizer tanto, mas não conseguir porque o que se queria dizer é exatamente o que foi dito?
Muito bom o texto Heldinho, como todos os seus o são. =]
Acho que o bom é pensar que, como diz o comentario ai em cima, "se for pra ser, que seja", e deixar as coisas acontecerem da maneira que tem que ser: imprevisíveis e intrigantes.

;*

Alice Pio disse...

Carpe Ótica Míope...

e o que mais aprouver!

Leila Krüger disse...

Essa mensagem lembra as reflexões do meu romance, que tô lançando. "Perder-se também é caminho" (Clarice Lispector), "Não há caminho, mas estrelas no mar."

Se puderes passa no meu e segue, vai ser muito bem-vinda!
http://leilakruger.com.br

Tô lançando um romance dia 25/11 em Porto Alegre, já está à venda. Hot site do livro: http://www.leilakruger.com.br

SINOPSE:
"Está bem no fundo. Não se pode alcançar... aos poucos, vai roubando o ar.” Ana Luiza vai perdendo seu fôlego: o fim de (mais) um grande amor, um pai distante, uma mãe fútil, uma amizade complexa e "pessoas que sempre vão embora". Com suas músicas de rock, seus livros e seus cigarros, Ana Luiza vê sua vida desmoronar.

"O amor é uma ferida”, ela sentencia. Mas a “garota de olhar longínquo” tem um encontro inesperado com um alguém aparentemente muito diferente dela: os “olhos imensos”, que tudo veem... Presa em seu próprio mundo e rendida ao álcool e às drogas, Ana Luiza tenta fugir. Principalmente do temido amor, que tanto a feriu...

Como encontrar, ou reencontrar o próprio destino?

Até onde o amor pode ir, até quando pode esperar? O que há além das baladas de rock e dos poemas românticos? Poderá o amor salvar alguém de sua própria escuridão?

Às vezes, é necessário perder quase tudo para reencontrar... e finalmente poder amar.

Bjo!

Jéssica V. Amâncio disse...

A rotina se infiltra na gente, esquecemos de filtrá-la.

Daniel Simões disse...

Claro, ótimo texto e concordo com os demais comentários. Mas só tenho a acrescentar que carpe diem me lembra Phineas e Ferb sacou? hahahaha Estou cada vez menos formal viu...Abs

Carol Bloizi disse...

Sou mais o bom e velho hakuna matata :B