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Vácuo

O maxilar de Victor travou. Incomodado, foi até o Dr. G (nunca lembrava o resto do seu nome) para obter um diagnóstico, mas não julgou a resposta dele clara o suficiente. “O que teria causado isso?”, perguntou-se. Imaginava se não teria ficado calado por horas de novo na festa da madrugada. “Sim, todos estavam muito silenciosos”. O som das relações não se propagava há um tempo, era estranho como não lembrava mais da voz ou mesmo do toque das pessoas. Confundia-se quando entrava nessas questões e convencia-se de que sempre foi assim. 

Victor tinha muitos amigos, pois visitava vários lugares todos os dias. Colecionava essas pessoas incríveis que, de tão perfeitas, pareciam editar a vida, ocultando defeitos em suas histórias (a palavra história entrou em desuso e foi substituída pela expressão “linha do tempo”). O mundo estava tão conectado, tão pequeno. Tudo era feito para que não houvesse perda desse bem precioso: multifuncionalidade, agilidade, diminuição ou exclusão de toda distância. Mesmo assim, Victor era incomodado por uma impressão alarmante de que existiam quilômetros de distância separando-o das pessoas. Tinha medo da solidão. Também, ao contrário da maioria, achava que as horas corriam cada vez mais. Confundia-se quando entrava nessas questões e convencia-se de que deveria parar de pensar nessas coisas, pois já que o tempo é curto, deveria utilizá-lo melhor. Tinha muito o que visitar, opinar, registrar, papear. 

A dor no maxilar, bruscamente, forçou-o a pensar novamente e procurar soluções. “Onde mais posso encontrar ajuda? Quem mais poderia me ajudar além do Dr. G? Qual era o nome daquele lugar onde as pessoas iam?”, perguntava-se. “Acho que se chamava... ‘internet’, sim! Era isso, ‘internet’. Como entro nesse lugar? Era através de uma espécie de tela luminosa?” Olhou em volta e percebeu uma luz fraca saindo por uma brecha distante. Iria até lá, mas suas pernas já não obedeciam. Estava sentado ali há quanto tempo? 

O rosto de Victor ganhou uma expressão de pavor. Em pânico, percebeu que suas costas estavam tão travadas quanto seu maxilar e suas pernas e que tudo doía de forma insuportável. A reação mais provável seria chorar, mas os olhos secos não permitiam. Com muita dificuldade, foi se arrastando pelo chão numa tentativa desesperada de chegar até a “internet” para pedir socorro. A luz fraca permitia que ele enchergasse as partículas que dançavam no ar. Sentiu-se sufocado. Reuniu suas forças, que residiam apenas nos dedos das mãos, avançava com uma lentidão aflitiva. 

Após algum tempo, chegou até o seu destino e, esforçando-se de forma sobrehumana, fincou os dedos na parede objetivando ficar de pé. Dolorido e quase sem ar, lembrou-se de que aquela tela de onde saía a luz era acessada através do "win, windows, window". Não lembrava que "window" era aberto manualmente. Abriu e imediatamente sentiu uma brisa tímida roçar em seus cabelos longos. Ganhava o ar aos poucos. Tentou abrir os olhos, mas não enxergava nada por causa da luz forte e se perguntou onde estaria o botão para controlar o brilho e o contraste. Avançou, vacilante. Tombou. Caíu do 7° andar. Imóvel, sentindo que a vida o abandonava aos poucos, lembrou o nome do Dr. G. Lembrou-se de tudo. Horrorizado, procurava alguém, inutilmente, para avisar que trocaram o real pelo virtual. Precisava avisá-los para que logassem no mundo. Ninguém prestou socorro ou mesmo viu Victor morrer. Nem o Dr. Google.

3 comentários:

Daniel Simões Coelho disse...

hehehehe
vc e seu estilo de surpreender
otimo texto
abs

heelder disse...

Obrigado, amigo.

Tais disse...

Seria algo meio "1984"? rs
Como sempre, fantástico, Héldim. =D