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Boêmio errado

Não, obrigado. Tirando aquela vontade intrínseca, notavelmente humana, de me enturmar e não ficar à margem da mesa do barzinho, me interessa mais permanecer sóbrio e aprimorando a arte de tomar um bom guaraná como se fosse cerveja. Careta. Medroso? Sem histórias? Lembrando dos problemas? Sério? Sério. É, mas não pense que a poesia boêmia que paira em torno das bebidas e das pessoas não me faz umas cócegas demoradas. Ela faz. Pior, una isso à minha visão romântica da vida e fica perigoso sustentar essas palavras. Ainda mais se o convite vier de Nelson Gonçalves: 
“Chore comigo esse pranto emocional! Não se envergonhe de chorar perto de mim, porque a lágrima é o desabafo natural entre dois copos e a mesa de um botequim.” 
É poesia. Pode ser de tristeza ou alegria, de chutar o balde, largar o controle, de prazer medido em mL, de amizades fáceis regadas à álcool numa mesa vermelha de plástico nos finais da tarde, de decepções amorosas, de paixões intensas em festas de camisas de gosto duvidoso, de aproveitar a vida. Poesia invejável (de certa forma) e arrebatadora. Posso chamá-la de vertigem se pensar de acordo com Milan Kundera: 
"Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados." 
A vertigem - vestida nessa poesia em mL - também me atrai e me envolve. A diferença é que já não me defendo aterrorizado. Não me defendo arrogante. Também não me defendo com religião ou com saúde. Simplesmente leio essa poesia, simpatizo com algumas, mas não escrevo. É que, sinceramente, já conheço-a de cor e salteado. Tem a mesma métrica, tem os mesmos versos (com palavras diferentes), evoca as mesmas imagens e pessoas.

Caso você me enxergue preso ou reprimido por não recitá-la contigo, não se preocupe, é apenas projeção sua. Essa não é minha prisão e muito menos minha liberdade. Liberdade, como li esses dias, é poder escolher (mesmo que a escolha seja a opção tida como careta, medrosa, sem graça). E se quem escreve essas poesias diz já ter encontrado sua forma de tirar proveito da vida e a tal fonte de histórias para os seus netos, eu ainda estou à procura de ambas. 

Ah, mas que dá vontade de tomar meu primeiro porre quando concluir meus estudos de engenharia, isso dá. Vertigem danada.

11 comentários:

Pedro Ivo disse...

meu ponto de vista é o seguinte: enquanto o motivo de eu estar ali for a conversa e os amigos, eu estarei sendo feliz na totalidade do meu possível. se for pra afogar mágoa, que eu fique em casa, tentando recuperar o fôlego sozinho.
essa é a pra mim a antítese entre "a praiera" e "solibar".

maravilhoso o texto, pontos de vista tolerantes me agradam :) sentemos novamente para rir qualquer dia desses, numa mesa de bar, ou não. me chame pra sua formatura! hahahaha

ficam as dicas:
não achei video pra "solibar", mas aq o link pra download do album que contém: http://www.mediafire.com/?awboirc1f6lu6xz
e aq o video d'"a praiera" de Chico Science:
http://youtu.be/Hg5k1myYwh8

abração, Heldim.

@heelder disse...

Até hoje seu ponto de vista me agradou e dessa vez não foi diferente, Pedrão. Até 2014 eu decido sobre meu porre, mas já está convidado pra formatura de qualquer forma, hahaha. Vou olhar esses links em breve e comento contigo depois.

Abração!

Daniel Simões Coelho disse...

Beber não é essencial, embriagar-se sim. Saudades dos tempos em que ria com meus amigos sem nenhum motivo após vários goles de guaraná. Além disso, qualquer pretexto para estar bem acompanhado e feliz é sempre bem vindo.

Eu havia prometido a mim mesmo fumar um charuto se passasse na Federal, o que não aconteceu. Minha repulsa a qualquer tipo de fumo foi maior.

De qualquer modo, ótimo texto. Excelente escrita e quero ser convidado para formatura também, hahaha

Abs

@heelder disse...

É isso aí, Daniel! Embriagar-se, não necessariamente de bebida, exaltando a felicidade. Sejamos boas companhias aprendendo de novo a rir e conversar. Também está convidado pra essa bendita formatura, ela promete!

Obrigado! ;)

P&B disse...

Eu vou dizer apenas isso: GOSTEI. Acho que já diz muito, né?

Glauber disse...

Faço parte dos artistas que bebem guaraná como se fosse cerveja e também partilho dessa vertigem.

No que diz respeito à poesia boêmia: é linda, fantástica. Mas prefiro ficar no grupo da 'poesia sem álcool', não por recriminar a bebida nem achar errado, não acho errado se faz a pessoa se sentir bem sem que ela incomode os outros mas fico com a 'poesia sem álcool' simplesmente pelo fato de gostar dessa variedade de poesias.

Escolha a bebida de sua preferência e vamos brindar à boemia que carregamos na alma. :)

Ótimo texto, jovem!

@heelder disse...

Não teria dito melhor, um brinde!

heelder disse...

Até hoje seu ponto de vista me agradou e dessa vez não foi diferente, Pedrão. Até 2014 eu decido sobre meu porre, mas já está convidado pra formatura de qualquer forma, hahaha. Vou olhar esses links em breve e comento contigo depois.

Abração!

heelder disse...

É isso aí, Daniel. Embriagar-se, não necessariamente de bebida, exaltando a felicidade. Sejamos boas companhias aprendendo de novo a rir e conversar. Também está convidado pra essa bendita formatura, ela promete!

Obrigado! ;)

heelder disse...

Não teria dito melhor, um brinde!

heelder disse...

E eu gostei de sua passada por aqui, Paula.