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Um homem precisa viajar

Em uma manhã em que mal suportarei a felicidade e a excitação, solenemente me despedirei com um "até breve" dos livros, dos filmes e da internet. Não sem antes agradecê-los por colocarem em minha cabeça que o confortante "viajar sem sair do lugar" não é suficiente e essa ideia de diminuir o mundo também não é tão incrível como dizem. Tudo isso é interessante enquanto alternativa, quando não se tem a oportunidade de colocar a experiência real em prática, mas não quando se tornam substitutos viciantes e confortáveis como colchão mole que não tarda a prejudicar a coluna.

Tendo em mente que já viajei muito com os pés e os olhos dos outros, enfim largarei minha desculpa junto com a cabeceira, o sofá e a cadeira e sairei para me aventurar por aí. De uns tempos pra cá isso tem ocupado grande parte dos meus pensamentos, com o poder típico dos primeiros dias de paixão. É importante dizer que não me preocupo em classificar em sonho popular ou hipster, pois tornaria minha recente vontade um tanto superficial. O que move nossas vontades não é tão fácil de julgar. Eu duvido que ela seja classificável. 
"Mas pra que pensar nisso quando se tem pela frente toda vastidão dourada da terra e acontecimentos imprevisíveis de todos os tipos estão à espera de tocaia para surpreendê-lo e fazê-lo ficar satisfeito simplesmente por estar vivo para presenciá-los."¹ 
Sobre os motivos para viajar (saindo do lugar), o “eu” caseiro e metódico me impede de dizê-los de imediato, pois, de acordo com ele, não é seguro fugir ao roteiro e muito menos partir rumo ao desconhecido. Porém, ao tentar me sabotar, ele mesmo me dá a resposta: tal como criança ignora que o remédio vá lhe trazer algum alívio, esse “eu” reluta em aceitar a estrada como um verdadeiro antídoto. 
"A pureza da estrada. A linha branca no meio da pista desenrolava-se e grudava-se na nossa roda dianteira esquerda como se estivesse colada em nosso embalo."2
Resoluto e envergonhado, meio a meio, me pergunto quem mais se meteria numa volta ao mundo de mochilão. Não abriria mão de dividir essa experiência com alguém amigo e tão louco quanto. Quem sabe dois, três, todos, porque de solidão já basta nossa habitual “viagem sem sair do lugar”. E então seria um feito maior que o de Phileas Fogg e sua Volta ao Mundo em 80 Dias, pois não seria fictício e, quisesse Deus, não teria prazo. Feito isso, algum dia, algum lugar, quem sabe, eu poderia trocar figurinhas com Christopher McCandless, Jack Kerouac e Jon Krakauer, algumas de minhas reais inspirações aventureiras.

Daqui mesmo eu consigo enxergar os lugares, as pessoas e as situações que existem mundo afora. Após provar o desconhecido, mesmo que nesse simples devaneio, minha alma aquiesce. Viajar é só uma desculpa. Trata-se pura e simplesmente de experimentar a vida em suas possibilidades, coisa muito dita e pouco feita. Pense comigo: o que a vida deveria ser se não uma paixão nos primeiros dias, a plenos pulmões? Arrumarei minha mala, satisfeito, e partirei, respirando pela primeira vez, mais uma vez. 
"E o novo caminhoneiro era tão louco quanto o primeiro e gritava tanto quanto aquele e tudo que eu tinha que fazer era me recostar e relaxar minha alma e deixar rolar. Agora podia ver a silhueta de Denver agigantando-se à minha frente como a Terra Prometida, lá fora sob as estrelas, através das pradarias do Iowa e pelas planícies do Nebraska, e pude ter uma visão grandiosa de San Francisco mais adiante como jóias à noite."3

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¹²³: Trechos do livro On The Road de Jack Kerouac nas páginas 269, 268 e 137, respectivamente.
PS.: O título é uma frase de Amyr Klink que, unida ao trecho escrito pelo mesmo, também inspirou esse texto.
PS2: A música abaixo faz parte da trilha sonora do filme Into The Wild (2007) que conta a história de Christopher McCandless.

5 comentários:

Glauber disse...

Uma leitura diferente das que costumo ter aqui, mas não menos agradável.

"Diga adeus, se despeça, vá em frente, não interessa onde vai chegar." (Rota 66 - Ranier Quinto)

@heelder disse...

Pois é, tô me aventurando em estilos diferentes, quero um blog bem diversificado. Obrigado pelo comentário, pelo elogio e pela frase! Acrescentam um bocado, não seria diferente, pois vem de você.

Abraço, meu irmão!

heelder disse...

Pois é, tô me aventurando em estilos diferentes, quero um blog bem diversificado. Obrigado pelo comentário, pelo elogio e pela frase! Acrescentam um bocado, como não seria diferente vindo de você. Abraço, irmão!

Daniel disse...

Certo marinheiro, ao final dos dias, ficava a beira do mar
observando o horizonte. Não eram as ondas, o azul da imensidão oceânica ou as centenas
de conchas que o fazia estremecer ou ocupar a atenção de sua vista, mas sim a incompreensível
impossibilidade do azul do mar se encontrar com o azul do céu.


Aquele humilde ser louco sonhou que poderia descobrir onde
eram as terras do firmamento, lá seria um lugar onde as impossibilidades seriam
possíveis. Por pensar assim, o marinheiro louco além de louco era considerado
tolo, por mal saber das coisas da vida.


Em um barco cautelosamente trabalhado, nas suas raras horas
de folga, o tolo marinheiro louco dirigiu-se ao mar. Em certo ponto, pôde ouvir
seus companheiros gritando para que retornasse. Já desaparecido no horizonte,
seus amigos puderam admirar a coragem do marinheiro, eles não tinham pena, mas
inveja por ele ter feito algo que sempre quiseram fazer.


O corajoso tolo marinheiro louco percebia com tristeza, que
por mais que viajasse o seu destino parecia nunca chegar. Sua tristeza, porém,
transformou-se em alegria, pois em sua jornada descobriu que o azul do céu e do
mar não se tocava, mas se abraçavam como proteção uma terra vasta e mais
interessante que o próprio firmamento.


Ao final de sua jornada, o corajoso tolo marinheiro louco
não era mais o mesmo. Ele havia aprendido muito, ele aprendeu que quanto mais
conhecia o mundo, maior ele parecia ficar. Seus amigos descobriram ali o sábio corajoso
tolo marinheiro louco e hoje todas as pessoa com essas características são
conhecidas apenas como aventureiros.


Vai lá e seja um sábio corajoso tolo marinheiro louco!

heelder disse...

Tolo eu já sou, falta ser sábio e corajoso! hahaha
Gostei da história, amigo!


Abraço!