+ textos

Queria morar no karaokê

É sábado e eu ainda me vejo sorrindo só de lembrar do que aconteceu no último domingo. Não há como não ser frustrantemente superficial ao tentar descrever o ocorrido naquele barzinho de nome Garagem. Eu ouvi um ou dois personagens incríveis desse momento dizendo que não queriam que aquilo acabasse. Por menos sentido que fizesse, por mais sóbrio que estivesse, eu disse que queria morar ali. 


Quando o box do chuveiro do banheiro vira palco e, por alguns instantes, a duração de uma faixa, nós nos expomos com sinceridade e sem grandes receios, eu penso que queria morar no karaokê. Quando o grupo do facebook do computador da sala vira plateia com gente conversando e rindo, ah sim, considero fortemente a ideia de morar no karaokê. 

Porque no karaokê tudo é simples.

Lá tem um palco pequeno a poucos centímetros do chão, um microfone, projeções luminosas de corações e outras figuras, um monitor com a letra das músicas e imagens sensacionais mais aleatórias que a própria playlist e na parede tem a placa mais simpática do mundo com os dizeres “proibido gritar e assobiar”, frase que parece ter saído da boca da avó naquele tom de quase consentimento. 

Basta que você conheça uma música entre sete mil para se tornar membro de uma fraternidade. A solidão é apenas música, pois quando não se trata de um louco que corre para o palco para dividir o microfone com você, o coro de vozes desleixadamente harmoniosas e queridas te empurra e brada e gesticula e sorri. Amador, veterano, tímido, gaiato, a sinceridade em sua voz será notada, aplaudida, quem sabe até ovacionada.



Caramba, “te ganhei no paparico, te papariquei, quis te dar um fino trato e me apaixonei!” me pareceu a coisa mais linda do mundo. E é. Michel Teló, Molejo, Reginaldo Rossi, Katinguelê, Tayrone Cigano, Frank Aguiar e todos os outros não são mais olhados de cima. Não são mais os excluídos da rodinha, eles tem seu lugar. Veja o cara sério que sobe ao palco. Ele pega o microfone. Silêncio na plateia. A música da vez é “Escrito nas Estrelas”. Não, não é possível... O cara tá falseteando! Cacete! É a Tetê Espíndola cantando! A galera vai ao delírio e eu só sei repetir sensacional, sensacional, sensacional... 

Meu Deus, por que não se vê mais o karaokê nas festas, nos churrascos e nas comemorações? Será que o medo de parecer ridículos nos tornou ridículos? Frustração, percebo agora mesmo, não é o pior sentimento. Apatia, sim. Meu amigo, não deixe que eu me torne apático. Me chame para um karaokê. Veja bem, supondo que cada música tenha três minutos de duração, multiplicados por sete mil dariam vinte e uma mil horas que dão oitocentos e setenta e cinco dias e que por sua vez dão dois vírgula quarenta e três anos...

Obrigado, pessoal. 


4 comentários:

Pedro Ivo Dias disse...

fantástico documentar esse fato, Heldim.
primeiro de muitos. o/
e sobre ser ridículo: se lá tivesse uma cama elástica, eu pularia nela.

heelder disse...

Obrigado, fantásticos fatos merecem ser documentados. Tô nessa vibe da cama elástica, vamo dançar na parada do shopping qualquer dia desses hahaha

Thaise Nogueira disse...

"Será que o medo de parecer ridículos nos tornou ridículos?"
Espetacular sua visão do karaoke, com certeza vai incentiva muitos adeptos, não apenas a se arriscar num palco de um bar, mas talvez ainda maiiiis... Profundamente, se arriscar na vida!

heelder disse...

Você captou a essência do negócio, Thaise. Obrigado por revelar o barzinho, pela leitura e pelo comentário.


;)