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Cafézinho na praia

Não vou ver o mar nesse fim de ano. Tento não ficar tão contrariado. Devo aceitar com gratidão expressa, sem impor condições, o próximo pedaço de tempo que me será servido. Sento de frente para o ventilador, coloco uma concha no ouvido, fecho os olhos e direciono o rosto para a lâmpada acesa. Acabo de lembrar aos risos quando meu amigo Lucas disse que esses são os passos para sentir-se na praia. A única coisa que destoa do cenário é a minha xícara de café, mas dane-se, há em mim uma necessidade profunda de estar desperto. 

Devidamente instalado na praia, posso finalmente contemplar. O mar nos dá todo o respaldo para sermos metafóricos e, por que não, para superestimarmos os acontecimentos (especialmente o próprio de estar na praia). Posso sentir a brisa, o Sol transforma a escuridão íntima do olho fechado em vermelhidão festiva. Imagino caminhar cedo ou de tardezinha, sem pressa e sem rumo, ignorando as provocações das ondas que vem me convidar para um mergulho e me preocupando apenas com a marca que o Sol deixará em volta dos óculos. 

Estando ali, aquela vontade de reclamar dos últimos doze meses apenas foi embora. O plano inicial era falar sobre as merdas do ano e como foi difícil vivê-lo, mas estou sob um dos efeitos mais bonitos da praia: entorpecido com a infinitude do mar e do céu, me vi pequeno com minhas misérias e a metáfora já estava ali quando senti os grãos de areia nos pés. Não pense que os grandiosos desrespeitam nosso direito legítimo de desabafar o sofrimento, pelo contrário, mostram-se acolhedores e bons ouvintes. 

Mais ou menos isso.

Sou compelido a pensar em coisas boas como as pessoas que chegaram esse ano. Queria estar rodeado delas. Os amigos de longa data, que a despeito de todo impedimento se tornaram mais próximos esse ano, não precisariam de convite e já estariam ali, sorrindo, com e como a família. Essas pessoas compartilharam comigo suas referências para que eu as pudesse encontrar e nada foi mais pungente. A felicidade mostrou-se relativamente simples quando assenti que ela está no próximo e que só é verdadeira quando compartilhada

Desvio meu rosto do Sol e fico feliz ao constatar que as provações se foram e que alguns sonhos antigos foram realizados. Novos sonhos vieram somar e me embriagaram (e embriagam) por esses doze meses e só a perspectiva de realizá-los me tornava mais feliz (e ainda torna). A frustração da não realização a curto prazo não deve se sobrepor ao fato de que esses sonhos nos alimentam em dias difíceis. As viagens, a música, os livros, as mudanças e demais projetos estão bem guardados e estou mais atento ao seus prazos de validade. 

Não vou ver o mar nesse fim de ano e já não estou tão contrariado. Apesar da vontade de contemplá-lo sem simulações, já aceito melhor a ideia de passar o ano novo onde quer que seja. Aos poucos me liberto da muleta que torna determinante em meu espírito fatores como lugares e datas. O café esfriou e já é tarde. Hora de devolver a concha, desligar a lâmpada, abrir os olhos e voltar da praia. Vem mais um ano por aí.

11 comentários:

Laís Freitas disse...

Grata presença do meu 2012. Feliz ano novo, Heldinho.

heelder disse...

Você é uma daquelas pessoas citadas no texto. Feliz ano novo, morena.

Teste disse...

Sigamos em frente então.

Teste disse...

Abs, Lucas

Daniel Simões Coelho disse...

Isso aê, um novo ciclo em 2013 repleto de desafio e conquistas.

heelder disse...

Daniel, meu broder! Obrigado pelo verdadeiro marco ao vir aqui em Conquista pra gente ter uma prosa pessoalmente. Você é uma daquelas pessoas do texto também! Abraço forte, feliz 2013!

Glauber Andrade disse...

Bateu uma vontade de ir pra praia, jovem.

O pior é que eu ainda tô sem rumo.
Começo a considerar essa possibilidade. Hahahaha!
Mas seja onde for, com ou sem cafezinho... meus votos de felicidade a você estarão presentes, irmão.

heelder disse...

Considere, Glaubo! Considere! Não preciso nem falar que você também tá nesse texto. Felicidade é pouco pro que eu desejo pra você, meu broder!

Tais disse...

Apenas lindo como sempre. E dando vontade de ir pra praia... ahuahuahuahauha
Mas vamos pro karaokê, né? :p hauhauahuahua

heelder disse...

Obrigado! E, veja só que surpresa, você também é uma das pessoas do texto! hahaha Karaokê pampando!

Lucas Marinho disse...

Vou ter que criar um tutorial pra essa parada! uehuehuehuehe... Adorei o texto Heldão! E a lembrança também! Abraço!