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O dia que ela entrou na roda punk

Ela entrou na roda punk. Não, não foi arrastada como geralmente acontece. Ela saltou, dona de si, para dentro daquela confusão sem precedentes! Quando pequena, quase pude afirmar, ela brincava de montinho e lutinha com os meninos na porta da rua. Afinal, dançava aquela dança insana de pernas e braços perigosos com toda destreza. O resto das pessoas reclamava pelo espaço subitamente roubado. Eu, espremido como um corpo de prova, só fazia questão dos meus olhos. 

Maldição ou privilégio, não sei bem definir, já estava apaixonado de novo. Dos motivos mais simples aos mais excêntricos, não há como remediar, meu coração dá uma festa regada a endorfina ao som de Baby Come Back. E então se projeta do peito de forma caricata, parecido com um desenho animado. 

Merecia. Aquela fantástica criatura mexia-se inacreditavelmente ao som de uma banda qualquer e eu assistia como a um desfecho importante. Ela jogava-se sem restrições ao acaso daqueles esbarrões e vazios, quase num acesso de loucura, como pude constatar em seus olhos vidrados. Creditei o louco esforço empregado ao fato dela possuir um corpo delicado demais para tal feito. 

Reparava no que dava forma ao vestido confortável e nos braços soltos, no nariz mais bonito do mundo e na boca cruel. Os cabelos curtos enganavam meus olhos e cresciam, por um momento achei que podia distinguir o perfume destes naquela profusão de cheiros. Era arremessada de um lado para outro, fiquei apreensivo. O temor se mostrou desnecessário ao ver aquele sorriso a cada passo torto, a cada espaço conquistado. Era incansável sua doação, indolor seu protesto, subjetivo seu ato. 

Quando finalmente recobrei os sentidos, não soube dizer quanto tempo tinha ficado ali. A produção do show já desmontava o palco e poucas pessoas restavam na pista. A roda punk já havia se desfeito. Rememorei ter vivido um momento onde não precisei de nada mais. Um momento em que a pirâmide de necessidades de Maslow se resumiu a um ponto e que a minha condição humana não pesou nem foi "insustentavelmente leve". Aquela paixão não se consumaria de forma convencional, não naquele momento, talvez nunca. Não que precisasse.

3 comentários:

Daniel Simões Coelho disse...

Feliz 2013, haja. Bom texto amigo, pensei em uma cena bem semelhante que ocorreu comigo. Abraços!

M disse...

"Aquela paixão não se consumaria de forma convencional, não naquele momento, talvez nunca. Não que precisasse."

A gente tem mania de achar que precisa se consumar, como se somente assim fosse válido se apaixonar .. mas quantas vezes por diversos motivos não percebemos que sem se consumar era até mais interessante?



Adorei o texto!

Hélder Silva disse...

Obrigado, M! This is the point.