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A alma do vagabundo

Supertramp, Carlitos, Seu Madruga. Vagabundos. A despeito do sentimento de ofensa causado pelo adjetivo, as paixões, as virtudes e os vícios presentes nos sujeitos são inspiradores. Ansiar por liberdade, não querer e não precisar de muito, achar as coisas complicadas demais e acreditar que poderiam ser simples. Estar repleto de filosofia de meio fio, longas caminhadas e desejo por novas experiências. Eu tenho alma de vagabundo. 

Musashi ou Vagabond.

Essa minha alma não acompanha a rotina faz algum tempo e desde então vivo em descompasso. Ela se agita no fim do expediente, no término da aula e no descompromisso e decanta às segundas, nos horários marcados e na burocracia. Ela é sal e açúcar, o corpo é água e recipiente. Nos enchemos de remédios para aliviar os sintomas, mas bastaria acrescentar alma para obter a cura. Por que é tão difícil?

A carga horária excessiva, os “bens”, as imposições e a superficialidade nos domam. Nossas reais necessidades incompatibilizam com o que nosso modo de vida definiu como necessário. Eu preciso de tempo livre. Preciso aprender música. Preciso viajar. Preciso escrever. Preciso estar com quem eu amo. Preciso andar por uns bons quilômetros. Do que você precisa? 

O ser vagabundo me inspira a não dar muita importância a fatos, coisas e setores, isoladamente. Assim, tendo ao equilíbrio e não ao extremismo, ao necessário e não ao excesso. Não larguei o emprego e os estudos para vagar pelo mundo, mas também não me deixei cercar por quatro paredes formadas pelo que me apresentam como realidade. Exercitando críticas bem alimentadas pelas diversas fontes e lados existentes e exercendo medidas compensatórias (um estresse por um hobby), nós abrimos janelas, respiramos. 

Somos completa e sinceramente forçados a viver reverenciando nossa vida e negando a possibilidade de mudança. Dizemos ser esta a única maneira, mas existem tantas quanto os raios que podem ser desenhados a partir de um centro.” - Henry David Thoreau

Quando essas janelas se tornarem estreitas (e é quase certeza que irão), quando não passar mais brisa ou luz que seja, a alma pedirá mudança. Pedirá, quem sabe, reviravolta, radicalidade, e a forma de equilíbrio que antes sustentava talvez se torne falha de tão cômoda, uma desculpa para permanecer imóvel. Coragem o vagabundo tem de sobra. Eu quero ser um vagabundo.

4 comentários:

Laís Freitas disse...

Paro tudo que estou fazendo para te ler, Hedinho. Até hoje nunca me arrependi. Obrigada pelas inspiradoras palavras. Saudade.

heelder disse...

Lai, muito obrigado. Saudade de você.

Victor Hugo disse...

E aí Heelder. Muito bom o teu texto, ficou muito legal o link com o Musashi do Inoue, um personagem de grande energia e que ao longo da vida vai disciplinando essa energia para que trabalhe a seu favor. Thoreau é o cara, um dos grandes Desviantes de nosso tempo. Abraço!

heelder disse...

Victor, obrigado pela leitura! Estou lendo ambos, Musashi e Thoreau, são obras muito ricas e que vão me mudando com o tempo. Abraço!