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"Dança da solidão"

Não dançamos no mesmo ritmo. Hoje, se eu ouço rock, você ouve samba. Você pode até escutar rock, mas nunca como eu, pelo menos hoje. Quando você escutar rock, quase tão entusiasmadamente quanto eu, será no dia em que estarei escutando jazz. E, se você me mostrar o rock, ainda estarei no jazz. Somos desencontros. Somos completamente desajeitados. 

José Arcadio Buendia, o patriarca "louco", amarrado sob o castanheiro, por Carybé.

Não conseguimos expor o que sentimos com precisão. Quando compartilhamos algo, são raras, talvez inexistentes, as chances de alguém compreender (ou se dispor a compreender) e daí sentir, mesmo um pouco, o que sentimos. Não sabemos como o outro nos interpreta. Ele julga, a partir de si, o que eu ou você não conseguimos expor integralmente. 

Você, ao ler isso, pode estar negando. Eu também neguei. Nós queremos acreditar que não estamos sozinhos. Sabemos de nossa incapacidade individual, apesar de ostentarmos autonomia. Toda autonomia é ilusória. E estamos sós. Somos um viajante no mais remoto do Alasca, prisioneiros em fissuras no Canyon, Ilhas. Use a sua metáfora favorita.

"Quatro anos de chuva ininterrupta em Macondo", por Carybé. 

Uma vez cientes de que estamos sós, podemos pensar com clareza. Não, o outro não chegará próximo de me entender e não chegarei próximo de entender o outro com apenas 140 caracteres, com um dia, com uma atitude, com um "santo" que deixou de bater. Sendo humanos cientes de sua solidão, mas que não conseguem ser sós, começamos a contestar essa falta de lógica com inteligência.

Fazemos arte. Artistas são grandes insatisfeitos com a solidão que transformam distâncias quilométricas, voltas ao mundo, em poucos centímetros de proximidade. Reconhecer-se em uma música, texto, fotografia, filme, quadro, escultura de areia ou o que quer que seja, faz com que você se sinta alcançado. A arte é um ônibus que nos deixa um ponto antes da casa do outro. 

Não só os artistas são heróis. Heróis são todos os que lapidam sua expressividade e compreensão. Eles travam longas conversas, discutem amenidades (que não são amenidades), se esforçam para ouvir e interpretar como aprendizes de um idioma novo, se deixam conduzir ou conduzem a dança, passam horas em frente a um borrão de tinta para tentar captar a essência do artista, se gastam pelo outro, apoiam o outro. 

Ilhas, unano-mos! Se não podemos ser Pangéia, sejamos arquipélago.

2 comentários:

Amanda disse...

Fantástico!! :o

Hélder Silva disse...

Muito obrigado, Amanda! Especialmente pela visita.