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Calidez

Três amigos decidiam-se sobre o próximo passo a tomar naquele atípico domingo de setembro. Já haviam almoçado um divertido yakissoba caseiro e visitado alguns amigos por boas horas preenchidas de notáveis sentimentos. Acabaram na praça de alimentação de um shopping comendo subway enquanto teciam teorias a respeito do músico que tocava aquela noite. Concluíram que apesar do repertório manjado  leia-se Pra Ser Sincero dos Engenheiros do Hawaii  ele arrumou algum espaço para originalidade com Chrystian e Ralf e, independente dessas coisas, também concordaram que era ingrato estar ali sem ser devidamente apreciado. 

Nada atípico. Nada mais banal que a praça de alimentação de um shopping, afirmação devidamente atestada pela quantidade de pessoas entediadas ocupando as mesas e mastigando seus lanches, transitando incessantemente por cada centímetro livre e alimentando filas para não perder o costume. Porém, não se sabe bem como acontecem essas coisas, as resistências em permanecer ali e as trivialidades das palavras rápidas deram lugar a intimidade. “Me descobri ateu”, um disse. “Sou católico”, disse o outro. “Ainda não sei”, disse a outra. Todo o resto foi relegado a um segundo plano. 

As conversas somadas ao redor, as músicas (não há esperanças para o músico da praça de alimentação) e o transitar infindável de pessoas, tal qual os barulhos e trânsito internos dos três amigos, ficaram suspensos. Havia medo, ansiedade e cautela em suas histórias e afirmações, mas ao mesmo tempo era incrível a familiaridade daquelas vozes. Eram vozes de canções antigas, contemporâneas ou futuras: vozes atemporais. Aquilo ressoava, dentro de pelo menos um deles, como um sonar que tentava localizar algo que fica letárgico a maior parte do tempo, algo que fica sedado por ocupações ridiculamente banais se comparadas a sua grandeza. 

O sonar feito de vozes detectou o que buscava. Horrorizado e maravilhado com sua redescoberta recente e pouco explorada, um deles se perguntou como conseguiu manter-se em sobrevida todo aquele tempo. Onde começava e onde terminavam as influências externas e as internas sobre ele? Viu-se angustiado novamente após um período confortável de autopiedade por não ter muitas certezas. Não, não se trata de alcançá-las rapidamente e colecioná-las, mas de estar persistentemente em seu encalço, protegido por suas sombras, na esperança de sentir-se seguro, enfim. 

As três vozes iam ressoando, se harmonizando a medida que saíam das gargantas, até se equalizarem a ponto de compor algo novo. Era um som experimental a ser executado que acendeu algo em pelo menos um deles. Era uma luz tímida, mas amplamente cálida. Três pessoas se dispuseram a entender-se mutuamente e a entender a si próprias, sem procurar julgar ambos. A iluminação na praça regredia, o trânsito havia praticamente cessado e, por consequência, o silêncio era quase palpável. No fim, não havia três pessoas na mesa, havia uma só.

2 comentários:

Tais Soares Marcondes disse...

Nenhuma foto poderia retratar de maneira tão bonita. Se as fotos valem mais que mil palavras, nesse caso, alguns vários caracteres valem por mais de mil fotos.
Fico feliz demais em fazer parte disso tudo, da vida desses tão queridos, das incertezas também, muito feliz.
E ainda que parcialmente apreciada a arte do pobre músico ignorado da praça de alimentação, peço desculpas, mas aqui a melodia é muito mais bonita.

Wigner Rodrigues Quaresma disse...

Muito bom...