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A verdadeira maturidade

Mudanças de estado perpetuam-se fora de nós, em pequenas demonstrações, na tentativa de explicar a transição-mor que é a vida. Do meu nascimento até a minha morte, as plantas e os videogames terão suas fases bem determinadas e, de acordo com as aulas de biologia, eu também. Acontece que pesquisadores estão afirmando que uma dessas fases dura mais do que estamos acostumados a achar

Em The Kings of Summer, três amigos, de aproximadamente 15 anos, não conseguem mais morar com os pais pela forma como são afetados por eles e decidem se mudar para sua própria casa, construída por suas próprias mãos. Eles anseiam pela independência, pelo que chamam de “ser homem”. 

Homens.
Não dando para a infância o pólo negativo e nem para a maturidade o positivo, não ignorando os estudos da neurociência sobre as delimitações das fases, carregaríamos tal previsibilidade? São relutantes, medrosos, passivos, traumatizados, todos os que fogem ou não se encaixam nesses esquema? 

Assim que você sair do Ensino Médio, enquanto faz cursinho ou não, deverá saber em que trabalhará pelo resto de sua vida. A partir de determinada idade, assistir animações é um sinal grave de demência. Você precisa saber dirigir aos 18. Se você não casar até os 30, vai passar o resto de sua vida sozinho(a): as mulheres (de onde surgiu isso?) rodeadas por gatos esnobes e os homens por dúvidas quanto a sua sexualidade. 

“Somos completa e sinceramente forçados a viver reverenciando nossa vida e negando a possibilidade de mudança. Dizemos ser esta a única maneira, mas existem tantas quanto os raios que podem ser desenhados a partir de um centro.” 
- Henry David Thoreau, Walden. 

Essa ideia de transição mágica, que eu e minha mania de classificações e marco zero adoraríamos que fosse verdade, não existe. Falando por mim, é uma irresponsabilidade eu ser adulto e uma tortura ser adolescente. Não é exclusividade: muitos amigos já me confessaram sentir o drama e a pressão da classificação etária trazendo suas responsabilidades pré-estabelecidas. 

"Por que não é permitido aos adultos enlouquecer com algo? Você tem que manter uma tampa sobre e, se você não coloca, você não cresceu, você é um boboca. Sua conversa é trivial e rústica. (...) Você não pode expressar suas necessidades emocionais. Você não pode se relacionar com suas crianças e você morre - sozinho e miserável." 
- Filme Fever Pitch, 1997. 

O filme Into the Wild (sim, vou citá-lo de novo) é dividido de forma a nos mostrar que só a viagem de McCandless, após formar-se, proporcionou-lhe uma infância, uma adolescência e uma fase adulta. Nossas fases, ao contrário dos nossos corpos, não seguem um fio único. Por vários canais, alternadamente paralelos e seriais, se iniciam e se interrompem as transições. 

Fugimos de casa, mas estamos construindo a nossa.
A verdadeira maturidade (ou as verdadeiras maturidades) a que cada um de nós está destinado se questionar o atual esquema, definindo-a como desenvolvimento humano em todos os aspectos, pode mostrar sua própria estrada. A vida poderá comportar paixões infantis, sonhos adolescentes e a sabedoria da velhice (a exemplo do meu avô, acertando a previsão do tempo pelos sentidos e vendo as fases da lua nos calendários além dos dias).

2 comentários:

Marcos disse...

Maravilhoso

ellen disse...

que texto bacana. sempre me questiono sobre a maturidade, se ela realmente existe e quem são essas pessoas maduras.


gostei muito do seu blog. abraços :)


chadas5inco.blogspot.com