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Gravidade

Durante a madrugada, estirado sobre lençóis surrados e alvos, teve novamente aquela experiência perturbadora. Entre consciência e inconsciência, percebeu que não conseguia se mover. Era como se pousasse sobre ele o céu. Consciência. Ordenou ao cérebro que ordenasse ao corpo que se mexesse. Inconsciência. Despertou com o alarme agredindo os ouvidos. A claridade invadia bruscamente os olhos claros com 0,75 graus de astigmatismo. 

Rolou da cama propositalmente até cair no chão. Tinha os cabelos escuros em desalinho, a gola da camisa pendendo para um lado e a vertigem típica daquele horário. A pasta na escova de dente, do tamanho de uma ervilha como ele colocava desde que leu que assim era o correto, caiu no sapato na primeira escovada. A água do café demorou para ferver. Os óculos escorregaram do rosto molhado e caíram no chão. 

- Porra de gravidade. - Desabafou. 

Ao entardecer, voltava do trabalho a passos rápidos. Suado e esgotado, queria pular aqueles minutos que o separavam de sua cama e de um filme. Distraía-se com o fato do beco por onde passava estar deserto naquele horário. Olhava para cima e se encantava com a vista inédita (para ele) das fachadas dos pavimentos superiores das construções. 

Na metade do beco, seus sapatos deslizaram pelo chão e, em um impulso, ele caiu de costas. Ninguém viu. Ao abrir os olhos, segundos após a queda, deu de cara com a vastidão negra que já havia se tornado o céu. Ficou em silêncio. Lembrou-se do fascínio tardio pelo que existe lá fora. Tardio porque não era sonho de criança, aquela coisa de astronauta - a bola que ele queria contemplar nessa época era bem menor - era sonho de adulto. 

Na Terra, ao caminhar, sua coluna pendia levemente para a frente e seus ombros estavam invariavelmente tensos, ambos dando sinais de um fardo invisível. Arrastava seus calçados desde pequeno, mesmo sob as broncas dos pais. Seu devaneio era que, no espaço, houvesse a possibilidade das coisas não se abaterem sobre ele daquele modo. Lá havia microgravidade e uma vista bonita. 

Foto: divulgação do filme "Gravidade".

Cedeu. Dormiu de olhos abertos, encarando as poucas estrelas no quadro emoldurado por edifícios. No dia seguinte, alguns transeuntes que não o julgaram bêbado, tentaram colocá-lo de pé, mas assustaram-se com o peso daquele homem que não aparentava possuir mais que 70kg. Ambulâncias e suas macas falharam. Absurdamente, guinchos falharam. Não o afastaram do chão por um instante. 

Identificaram-no como Bolívar Freitas, 26 anos. Pessoas próximas não sabiam o que fazer. Tornou-se manchete em todos os jornais do mundo. Físicos e estudiosos desfaziam-se em teorias a respeito daquele caso surreal. Estudantes posavam para fotos “criativas”. Virou "mene" no twitter e facebook e, mais tarde, ícone da cultura pop ao ser usado como referência em diversas ocasiões. 

Também virou uma espécie de muro de lamentações: já era hábito deitar-se ao lado de Bolívar, que aparentava uma serenidade infinda, para contar fatos e pensamentos íntimos. Alguns diziam sair mais leves depois de um papo. A perplexidade das pessoas que o examinavam todos os dias foi sendo substituída pela conformidade. Sim, graças à Deus, Bolívar estava vivo. Em algum lugar para onde seus olhos espertos apontavam.

6 comentários:

Tais Soares Marcondes disse...

Tava com uma sincera saudade desses textos. =)

Diego Carneiro disse...

Meu amigo, que texto! Adorei! Que bom que voltou!

Hélder Silva disse...

Obrigado, Diegão!

Hélder Silva disse...

=)

Daniel disse...

Rapaz, o bom de seus textos é não conseguir prever o destino dos personagens até o último parágrafo. Os míopes viraram astigmata, é isso? Que bom que retornaste a sua arte... Um engenheiro poeta, raro de se ver... hehehe

Abraços do seu amigo fugido!

Hélder Silva disse...

Obrigado, meu amigo! Eu tenho os dois, cara, acredite. Engenheiro ainda falta, poeta já aceito, mesmo que sendo iniciante. Abraços e aliviado por vê-lo são e salvo!