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Querido Violão Novo

Eu comprei um violão novo. Ele é tão bonito que não consigo tirar do meu colo. Não consigo parar de deslizar os dedos por suas cordas e olhar as marcas efêmeras que o calor de minha mão desenha em seu corpo. Aí deixo ele de lado, no canto do quarto, só pra ter o prazer de sentir saudade e matar saudade num ínfimo intervalo, repetindo e repetindo, experimentando a realidade como uma criança. 

Comprei porque é uma ocasião especial. Minha banda fará um show. Não o primeiro show, não a primeira vez naquele lugar, mas o primeiro com o violão novo. Faz sentido, né? Na verdade, faz todo sentido pra mim. O dinheiro que usei na compra foi o que ganhei com apresentações anteriores. É música virando música. Coisa bonita e pura. Eu imagino que seja essa a sensação de ver um filho dando os primeiros passos. 

Eu penso em música o dia todo. Eu penso no meu violão e nas minhas bandas e artistas favoritos. Eu penso nos gêneros, nas filosofias, no processo criativo, na identidade, nos objetivos, nas artes dos discos, apresentações ao vivo e em estúdio, versões acústicas, remixes e covers. Não sobra muito mais tempo pro resto.

Guto Guerra em Cuba, nas gravações do Programa Música na Mochila do canal Bis.
Fonte: Página do Facebook.

Por exemplo, estou com essa canção Lisztomania na cabeça, uma versão voz e violão que ouvi numa rádio, fiquei feliz nos primeiros acordes. Queria eu ser o cara a dar aquela boa notícia pro mundo, mostrar que dá pra se sentir bem ouvindo um violão. Queria ter feito essa música como já quis ter feito várias, mas Lisztomania é A Do Momento e será até que eu a esgote de algum modo, o que não me liberta dela para sempre.

Olha que nem saquei a letra de primeira, mas tem música que eu gosto por causa de um verso e o resto é todo duvidoso. Em outras eu ignoro a letra por completo, mas a melodia é suficiente, mais que suficiente. Não consigo jogá-las fora. Tem música que vai contra minha opinião, mas ainda assim eu gosto dela. Se ela me fez parar para escutá-la e me tira da apatia, sou grato. Se tocou o que só eu tinha em mente e, puta que pariu, não tinha dito para ninguém, sinto que posso pertencer a algum lugar. 

Então, eu quero me comover com todos Greatest Hits, The Best Of e coletâneas da Som Livre. E, nos intervalos, não censurar meus pés batendo no chão quando ouvir David Guetta. Eu quero me comover com Johann Sebastian Bach, Elomar Figueira Mello e gaitas de fole. Não quero perder nada. Quando deixo de gostar, por trás do bom senso da seletividade há um luto verdadeiro. Não quero sepultar meu violão. 

- Sebastião, porra! Você não disse que tem música nova? 
- Já vou! 
- Olha lá aquele goiaba dando entrevista pra ninguém de novo…

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