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O olhar da minha cachorrinha

É chegar na ladeira onde moro para os meus olhos me levarem além do tempo e espaço presentes. Desde os últimos passos que me separam de casa, já estou vendo um prato de comida requentada - e deliciosa - e cedendo ao inexorável descanso pós-almoço. Ficar dessincronizado com o presente pode ser arriscado e custa os pequenos e delicados acontecimentos do instante, mas vá lá, não tem muita coisa empolgante acontecendo todo dia por ali, nem em tão pouco tempo. 

Aí dou de cara com as cachorrinhas no portão. Ou o que consigo acompanhar delas - um pedaço de rabo, uma orelha - já que estão vindo em minha direção a toda velocidade, passando na minha frente, entre as minhas pernas, se apoiando nelas com duas patas. Não é só amor, claro. Rola um interesse pelo almoço que se torna cada vez mais real com a minha chegada. Comida é importante, concordamos bastante sobre isso. 

Quase fechando a porta de casa, algo me chama a atenção: um par de olhos parou em frente ao vão e se encostou na parede ao me encarar. Pertencem à menos peluda e mais melancólica das cachorras dali e, suspeito, do mundo. Eu também parei. Tinha voltado para o presente, cem por centro sincronizado. Meu coração, antes apertado pela correria matinal, se afrouxou. 

Por alguns segundos pude recobrar alguma pureza, os olhos bondosos me permitiam ao me ver como bom. Tinha muita pureza ali, então não fazia mal dividir. No silêncio dos olhos também percebi uma despreocupação risonha com o passar dos dias. Uma satisfação do tamanho de uma mão que faz cafuné. Ela, que em nada se parece com seu nome famoso e dançante, carrega seus sessenta e três anos de cachorro imersa em um mistério e uma transparência praticamente impossíveis de conciliar.

Essa é Shakira.
Foto: arquivo pessoal.

2 comentários:

Luan Valete disse...

Foto melhor que esse texto não existe. Nível de 'quero um cachorro assim': + de 9.000!

Amanda Tracera disse...

Lindos - o texto e a cachorra. Seu blog é um encanto só.